terça-feira, 29 de outubro de 2013

Cecília e eu - parte 4

Eu sei que talvez esteja me demorando demais na descrição de minhas andanças pela casado Cosme Velho com Maria Mathilde, mas queria mesmo contar com detalhes, pois foi uma experiência marcante na minha história com Cecília.
Para não cansar quem até agora não desistiu de acompanhar a série de posts, vou tentar resumir um pouco...
Digo apenas que percorri a casa toda com minha anfitriã. E pude conhecer até mesmo os azulejos onde Cecília um dia tirou essa foto:


Mas o mais emocionante mesmo foi chegar ao segundo andar, onde se encontrava a biblioteca de Cecília, ver seus livros ali nas estantes e poder até mesmo tocar a mesa em que ela trabalhou durante tanto tempo:


Ao que parecia, Maria Mathilde procurava manter o escritório bastante preservado, de modo que parecia que Cecília poderia voltar a qualquer momento e retomar seus escritos.
Como disse, foi uma experiência marcante na minha vida. Saí de lá levando muitas edições de livros de Cecília, recebidas como presente de Mathilde. Minha coleção de livros da escritora começava a crescer e a contar até mesmo com alguns exemplares raros.
Antes de voltar para casa, ainda pude me encontrar com a filha mais velha de Cecília, Maria Elvira, que morava num apartamento em Copacabana. Dela, ganhei a preciosa edição de 1977 da Obra poética da Aguilar.
Fui ainda ao cemitério de São João Batista, fazer uma visita ao túmulo de Cecília.
Voltei para casa animada para começar meu curso de Letras e poder me dedicar a estudar ainda mais a obra da minha autora preferida.

domingo, 27 de outubro de 2013

Cecília e eu - parte 3

Eu tinha, na postagem anterior, contado como foi subir os degraus do jardim daquela casa mágica no Cosme Velho com palavras de Cecília ecoando na minha cabeça. Pois bem, assim que chegamos à varanda da casa, Maria Mathilde começou uma espécie de jogo comigo, que se tornou um hábito entre nós. De repente ela apontava para algum objeto e me perguntava se eu o reconhecia. Eram sempre aqueles que de alguma maneira tinham sido referenciados nos textos de Cecília.
Ela me testava, eu sabia. Mas eu adorava , porque assim ia conhecendo ao vivo o universo em que viveu Cecília.
Um dos primeiros objetos escolhidos para o teste foi um espelho oval, cujo desenho foi usado por Cecília num poema-errata, em que pedia desculpas por um deslize ortográfico.
Depois, mostrou-me a estátua da primavera que aparece no poema "Leilão de jardim", do livro Ou isto ou aquilo: "Quem me compra este caracol? / Quem me compra um raio de sol? / Um lagarto entre o muro e a hera, / uma estátua da Primavera?"
Eu tentei fotografá-la com uma máquina bem precária que tinha então. Com um scanner e alguma edição de imagem, consegui salvar isto:


Numa das salas da casa, via-se a porta de vidro com círculos de metal que serve de fundo para uma conhecida foto de Cecília:


Tudo ali me deslumbrava. Mathilde, com toda a paciência, me mostrava a casa, me contava histórias e me dava muitos livros de presente.
Na sala principal da casa estava o quadro de Cecília pintado por Árpád Szenes, o mesmo artista que desenhou o célebre perfil de Cecília que aparece em muitas edições de seus livros:


Mas eu confesso que a minha comoção maior foi ver pessoalmente uma terrina de sopa que Cecília havia herdado de sua avó açoriana, Jacinta Garcia Benevides. A terrina é referida no livro Olhinhos de gato, em que Cecília conta de forma poética suas memórias de infância. Mais tarde, em 1962, num poema chamado "Terrina", a corça que ilustra a estampa da peça se transforma numa  interlocutora com quem a poetisa relembra o passado. Era um objeto muito bonito e merecia uma foto profissional. Infelizmente, só me restou essa tentativa primária:


Mesmo diante dessa foto precária, dá pra imaginar a emoção que senti diante dessa terrina? Eu mal podia acreditar que, saindo lá daquela cidade longínqua do interior de São Paulo, tinha ido parar no cenário em que meus poemas preferidos tinham sido escritos!
Mas a casa era enorme, e nós estávamos apenas no andar térreo! Ainda havia muito para ser visto!

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Cecília e eu - parte 2

Pronto, vamos continuar mais um pouco a história...
Estávamos em 1977, não é?
Naquele ano, eu prestei vestibular para aquela que seria a primeira turma de Letras da Unicamp.
Mas antes de sair o resultado, fui visitar minha prima que estava morando no Rio de Janeiro. Lá, eu tinha um plano secreto: tentar encontrar as filhas de Cecília.
Eu tinha escrito para algumas editoras, tentando contato com a família e também com alguns estudiosos da obra de Cecília. Eu era atrevida e assim já tinha descoberto que a segunda filha da poetisa, Maria Mathilde, morava então no mesmo endereço do Cosme Velho onde a minha escritora querida tinha passado as últimas décadas de sua vida.
Os mais novos não devem saber, mas os mais velhos certamente se lembrarão de que nessa época, eram raros os telefones - fixos, claro - que funcionavam, no Rio. Tentei ligar, mas não consegui.
Assim - eu era atrevida, lembram? - peguei um ônibus e me abalei para o Cosme Velho, sem ter a menor ideia de onde ficava a Rua Smith de Vasconcelos. Sim, ainda não existia o Google Maps. Nem o GPS. Nem a internet. Nem os computadores pessoais. Enfim, praticamente era a idade da pedra.
Quando o ônibus já se preparava para estacionar no ponto final, eu, que vinha triste, sem encontrar a rua, de repente enxerguei a placa, num muro antigo, onde estavam incrustadas as raízes de uma árvore muito grande e muito velha que se equilibrava no início da encosta do Morro de Dona Marta. Era ali, bem ao lado da estação do trenzinho que sobe ao Corcovado! Desci do ônibus com o coração aos pulos e, ao chegar diante da casa, sem vacilar toquei a campainha. Ah, como é bom ser jovem e inconsequente! Hoje não teria essa coragem nem essa cara de pau.
Para meu assombro, vi então descer a longa escadaria uma senhora simpática, de olhos claros, que guardava em sua aparência muita semelhança com as fotos de Cecília que eu conhecia. Aquele olhar não deixava dúvidas: era a própria Maria Mathilde quem atendia o chamado da campainha tocada por aquela menina petulante.
Identifiquei-me e disse que amava a poesia de Cecília e que gostaria de conhecer a casa. Ela, sem vacilar, me convidou a entrar. Eu mal podia acreditar que estava entrando ali!
Já na longa escadaria que percorria o jardim e levava ao casarão lá no alto, vieram à minha memória os trechos iniciais daquela conhecida crônica do livro Ilusões do mundo, chamada "Um cão, apenas": "Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim - plantas em flor, de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito - , eis-me no patamar."
E lá estava eu, vivendo pessoalmente o texto da crônica, chegando ao patamar, acompanhada de Maria Mathilde e prestes a entrar naquela casa mágica, onde eu voltaria muitas vezes nos anos seguintes, e que ficou para sempre na minha memória, sem que eu jamais pudesse ter tido a oportunidade de fotografar decentemente o que vi por lá. Então vou contando aqui, tentando substituir com mil palavras cada foto que não tirei. Será que consigo?

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Cecília e eu - parte 1

Decidi começar a contar aqui a longa história que me liga à obra de Cecília Meireles e - por que não? - até mesmo à pessoa da poetisa, embora eu nunca a tenha conhecido pessoalmente. Terei de escrever vários posts para isso, pois tudo começou há 37 anos. E não acabou ainda...
Em 1976, eu era uma adolescente típica, cheia de crises, sem ainda ter sequer escolhido a carreira que gostaria de seguir, mesmo estando já no penúltimo ano daquilo que chamávamos de colegial.
Gostava de música, gostava de literatura e foi assim que um dia, tendo ouvido falar que a letra de "Os inconfidentes", de Chico Buarque, fora tirada de um poema de Cecília Meireles, fui à biblioteca da escola para encontrar a  fonte.
Conhecia Cecília dos poemas infantis, das crônicas que apareciam nos livros didáticos. Mas nem sequer sabia que ela tinha um livro chamado Romanceiro da Inconfidência. Por isso, pedi à bibliotecária a Obra poética de Cecília Meireles, pensando que não seria difícil encontrar a origem da canção de Chico Buarque.
Lembro-me bem: era a edição de 1967 da Editora Aguilar, volume que tinha sido feito num formato um pouco menor que o habitual. Era quase um livro de bolso.
Por ser uma edição mais cara, não podia ser emprestado. Eu teria de ler ali na biblioteca. E assim comecei a folhear o volume, lendo rapidamente os poemas. Reencontrei "Retrato", que conhecia mas não me lembrava que era de sua autoria: "Eu não tinha este rosto de hoje / assim calmo, assim triste, assim magro".
E segui lendo, até que um poema chamado "A última cantiga" praticamente me atropelou, quando cheguei na penúltima estrofe, que dizia "Ainda que sendo tarde e em vão, / perguntarei por que motivo / tudo quanto eu quis de mais vivo / tinha por cima escrito: 'Não'." Pronto, tive a exata sensação de que minha vida, até ali, tinha sido resumida em quatro versos!
De repente, tudo o que eu queria ler era a poesia de Cecília. E o livro não podia sair da biblioteca da escola! Passei todos os intervalos e aulas vagas, no resto daquele ano, ali na biblioteca, lendo e copiando poemas, até que o ano acabou e as férias chegaram, fechando a biblioteca.
Não havia livrarias na cidade, mas descobri que a biblioteca municipal tinha livros de e sobre Cecília, que podiam inclusive ser retirados! Foi a minha salvação. Passei as férias na biblioteca e em casa, lendo e copiando poemas num caderno.
Foi nessa altura que decidi que queria fazer Letras, para poder estudar mais aquela autora e aquela obra. Tinha a sensação de ter encontrado alguém que havia escrito tudo aquilo que eu um dia gostaria de ter dito.
No ano seguinte, enquanto seguia lendo Cecília e tentando comprar livros dela, inscrevi-me no vestibular para cursar Letras na Unicamp.
Mas o final daquele ano de 1977 me reservaria ainda algumas surpresas.