domingo, 27 de outubro de 2013

Cecília e eu - parte 3

Eu tinha, na postagem anterior, contado como foi subir os degraus do jardim daquela casa mágica no Cosme Velho com palavras de Cecília ecoando na minha cabeça. Pois bem, assim que chegamos à varanda da casa, Maria Mathilde começou uma espécie de jogo comigo, que se tornou um hábito entre nós. De repente ela apontava para algum objeto e me perguntava se eu o reconhecia. Eram sempre aqueles que de alguma maneira tinham sido referenciados nos textos de Cecília.
Ela me testava, eu sabia. Mas eu adorava , porque assim ia conhecendo ao vivo o universo em que viveu Cecília.
Um dos primeiros objetos escolhidos para o teste foi um espelho oval, cujo desenho foi usado por Cecília num poema-errata, em que pedia desculpas por um deslize ortográfico.
Depois, mostrou-me a estátua da primavera que aparece no poema "Leilão de jardim", do livro Ou isto ou aquilo: "Quem me compra este caracol? / Quem me compra um raio de sol? / Um lagarto entre o muro e a hera, / uma estátua da Primavera?"
Eu tentei fotografá-la com uma máquina bem precária que tinha então. Com um scanner e alguma edição de imagem, consegui salvar isto:


Numa das salas da casa, via-se a porta de vidro com círculos de metal que serve de fundo para uma conhecida foto de Cecília:


Tudo ali me deslumbrava. Mathilde, com toda a paciência, me mostrava a casa, me contava histórias e me dava muitos livros de presente.
Na sala principal da casa estava o quadro de Cecília pintado por Árpád Szenes, o mesmo artista que desenhou o célebre perfil de Cecília que aparece em muitas edições de seus livros:


Mas eu confesso que a minha comoção maior foi ver pessoalmente uma terrina de sopa que Cecília havia herdado de sua avó açoriana, Jacinta Garcia Benevides. A terrina é referida no livro Olhinhos de gato, em que Cecília conta de forma poética suas memórias de infância. Mais tarde, em 1962, num poema chamado "Terrina", a corça que ilustra a estampa da peça se transforma numa  interlocutora com quem a poetisa relembra o passado. Era um objeto muito bonito e merecia uma foto profissional. Infelizmente, só me restou essa tentativa primária:


Mesmo diante dessa foto precária, dá pra imaginar a emoção que senti diante dessa terrina? Eu mal podia acreditar que, saindo lá daquela cidade longínqua do interior de São Paulo, tinha ido parar no cenário em que meus poemas preferidos tinham sido escritos!
Mas a casa era enorme, e nós estávamos apenas no andar térreo! Ainda havia muito para ser visto!

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