quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Toní


Esta é uma postagem atípica, em que não vou reclamar de nada, mas sim expressar uma gratidão a alguém a quem jamais pude fazer saber o quanto lhe sou devedora.
Em meados dos anos 80, eu passei por um período de crise. Muitas mudanças aconteceram, e eu estava bastante confusa sobre os rumos que daria à minha vida.
Foi então que decidi procurar ajuda de uma psicóloga. Pergunta daqui, pergunta de lá, acabei chegando à Toní. Começava ali uma relação que se estenderia por longos 7 anos.
No início, eu relutei muito, usando todo o meu arsenal de racionalidade e me armando contra qualquer tentativa de interpretação das minhas palavras, dos meus sonhos, das minhas atitudes.
Houve um dia, entretanto, em que Toní finalmente me fez ver que a resistência também significava. A partir dali, tudo mudou.
Uma das lembranças mais vívidas que tenho é a de Toní tentando me convencer a adotar a aquarela como uma forma de expressão menos controlada racionalmente. Segundo ela, como sempre trabalhei com as palavras, a expressão verbal em mim era sempre produto de uma elaboração racional, mantida sempre sob controle absoluto.
Lidei com aquelas cores que escorriam junto com a água, mas nunca senti que tenha feito algo que valesse a pena naquelas folhas de papel canson.
Os anos se passaram, eu superei a crise e, 7 anos depois de iniciadas as sessões, Toní e eu chegamos à conclusão de que já era hora de tocar sozinha a minha vida.
Desde então, tenho passado por situações muito boas e outras muito ruins, mas tenho conseguido manter um razoável equilíbrio. E sinto que, na raiz dessa estabilidade, estão aqueles 7 anos de sessões com a Toní, aprendendo a me conhecer melhor e a gostar mais de mim.
Quando penso nela, hoje, tenho um sentimento de gratidão muito grande, mas tenho também a certeza de que não poderei nunca expressar isso para ela.
Decidi fazer então este post, para pelo menos ficar aqui um testemunho público dessa gratidão.
Para terminar, queria também dizer que penso finalmente ter encontrado uma forma de expressão não verbal e portanto menos controlada racionalmente: a fotografia. A câmera, para mim, ocupa o lugar que imagino ter sido aquele pensado por Toní quando me sugeriu a aquarela: a expressão das minhas intuições e da minha sensibilidade, não controladas racionalmente. Mais uma razão para ser grata à Toní.
Por isso é que este post começa e termina com fotos. Essas imagens, para mim, representam momentos em que consegui produzir quadros que me agradam, mesmo sem ter noção de como isso aconteceu. Intuitivamente, apertei o botão da câmera com o enquadramento que escolhi sem pensar muito, e o resultado me deixou feliz. Era isso, então, Toní?
Obrigada, mais uma vez.



PS - Quando escrevi este post, a Toní estava num hospital, em estado terminal. Eu não quis falar disso no texto, para evitar uma exposição inútil dessa situação tão difícil que ela vivia. Ontem, domingo, 25 de setembro, ela faleceu.

domingo, 4 de setembro de 2011

Silêncio made in Japan

Este é o primeiro guest post da Psiulândia, e foi escrito por minha amiga Marcie (@Marcie14), autora do ótimo Abrindo o bico. Ela esteve recentemente em Tóquio e de lá mandou uma série de tweets com a hashtag #tokyorules. Como em muitos deles ela comentava a diferença entre os ruídos urbanos de Tóquio e os de Nova Iorque ou São Paulo, achei que seria o caso de pedir a ela um depoimento mais extenso sobre essas impressões. Para minha surpresa, ela não só aceitou como hoje mesmo, bem cedinho, me mandou o texto que segue. Obrigada, Marcie, rabugenta honorária da Psiulândia! Fico honrada com a sua participação por aqui. Sinta-se à vontade para outras participações!






Imagine uma metrópole onde o Psiulândia não precisaria distribuir tantos psius. Uma cidade onde, na verdade, a Ana teria que inventar outro assunto para blogar. Por tudo que vi (embora infelizmente tenha visto pouco) Tóquio se encaixa perfeitamente nessa categoria.  No começo, eu não estava entendendo do que sentia falta. Até que me dei conta: não tinha escutado uma buzina sequer! Não tinha ouvido um escasso ringtone; e menos ainda um desses abomináveis Nextel. E o mais engraçado é que estava vendo várias pessoas falando ao telefone. A conclusão óbvia é que eu havia desembarcado num país que ainda cultiva essa coisa rara chamado silêncio.
Claro que já tinha lido um pouco sobre os usos e costumes locais: a lição de casa que todo mundo faz (ou deveria fazer) antes de viajar. E já sabia das regras básicas de etiqueta relativas ao tema: não falar alto, manter os celulares no mode silencioso, não usar o aparelho em lugares fechados (restaurantes, trens, metrôs), etc, etc. Mas não imaginei que a coisa fosse levada tão a sério. A ponto de eu poder afirmar que, no Japão, ouvir conversa alheia é um passatempo destinado ao fracasso.
Sei que é engraçado eu estar aqui falando não do que vi, mas sim do que não ouvi em Tóquio. Mas a idéia é essa, certo? Não ouvi os desagradáveis ruídos que se somam aos ruídos inevitáveis das grandes cidades. Claro que há sirenes; claro que há metrôs e trens se deslocando em alta velocidade; claro que há caminhões; claro que há construções (afinal, Tóquio não é exatamente um vilarejo Amish), mas é como se, justamente por causa disso, a cidade decidisse não acrescentar ruído ao ruído. Ah, sim, posando de exceção, existem sempre os karaokês – mas aí já é pra quem esteja procurando barulho...
Moral da história? Por mais que eu tenha amado o Japão, acho que não conseguiria morar lá. E acho que a Ana também não. Afinal, do que é que a gente iria reclamar?