quinta-feira, 24 de junho de 2010

Civilização e barbárie.

Dia desses vivi uma situação que me fez pensar. Começo pelo relato dos acontecimentos.
Era dia de jogo do Brasil, nessa primeira fase da Copa. Eu tinha ido almoçar e estava voltando pra casa, um pouco antes do horário do início do jogo. Em plena Avenida Paulista, havia um vendedor de vuvuzelas, como era de se esperar.
Ele trazia, no entanto, um instrumento que eu ainda não tinha visto (embora já tivesse ouvido falar dele): uma vuvuzela dupla, em que, a partir de um só bocal, distribui-se o sopro por duas cornetas.
Eu me aproximei do vendedor e perguntei como aquilo funcionava, porque queria ter uma dimensão do tamanho do barulho e ele, todo feliz, fez uma demonstração para mim, certo de que tinha ganhado uma freguesa...
Eu ouvi aquilo e disse pra ele minha opinião sobre o aparato: "Inferno em dose dupla!"
O vendedor imediatamente se contrapôs e disse: "Nada disso: quem quer sossego fica em casa: entra, fecha a porta e pronto!"
Eu fui andando e pensando nessa frase.
Em primeiro lugar, esse sossego do lar só seria possível se todos vivêssemos em casas com isolamento acústico! Mas não vou nem usar esse argumento, porque o problema maior, pra mim, nem era esse. Ainda que esse refúgio fosse possível, acredito que há, na frase do vendedor, uma inversão do conceito de público e privado.
É como se, ao sair de minha casa para um espaço público como a rua, eu aceitasse um pacto de barbárie e tivesse, portanto, de me sujeitar a conviver com pessoas num ambiente em que tudo é permitido, em que vale tudo.
Segundo meu ponto de vista, segundo tudo o que aprendi em casa e na escola, no ambiente privado de minha casa é que eu poderia viver, agir, falar como eu quero. No ambiente público, tenho de lembrar que se trata de um espaço de convivência e, portanto, limitado pelos direitos dos que compartilham esse espaço comigo.
A frase do vendedor me fez enxergar uma razão para todas aquelas loucuras que vemos em nosso dia a dia, em qualquer lugar de convivência social: todos agem conforme sua vontade, sem a menor consideração pelos demais. Conversas em voz alta, celulares tocando música sem fone de ouvido, som alto nos carros, buzinas, lixo, sujeira, agressões, vuvuzelas: tudo está permitido no espaço público. Quem deseja algo diferente disso deve ficar em casa. No espaço público consente-se a barbárie. Quem quer civilização, fique em casa.
Alguém me explica o que foi que aconteceu com o mundo?

domingo, 20 de junho de 2010

Assim caminha a humanidade...

Vi uma matéria publicada hoje no Estadão (o link está aqui), anunciando que as queixas sobre barulho feitas ao 190 da Polícia Militar cresceram 226% de 2006 a 2010.
A equipe do jornal acompanhou o trabalho da PM numa noite de sexta-feira fria: foram 448 chamados ao 190 por causa de barulho. Segundo a matéria, em noites de calor esse número sobe de modo significativo.
Durante a semana, a média é de 392 casos, crescendo para 1.118 de sexta-feira a domingo.
As ocorrências são motivadas por festas, bebedeiras, rezas, cantorias e rojões e geralmente ocorrem nos bairros mais periféricos.
Segundo a PM, nos bairros mais centrais, os problemas maiores são com igrejas e bares, mas os vizinhos mais "escolados" já apelam direto ao Psiu. A PM acaba ficando responsável pelas ocorrências mais periféricas e eventuais: "Multar bares com alvará é fácil. Agora, como fechar uma festa na periferia ou um boteco sem alvará?", diz o Major Ulisses Puosso, comandante do Copom.
Os casos narrados ali vão desde um grupo de moradores que fecha a rua para uma festa sem autorização a carros estacionados na rua com alto-falantes no máximo durante a noite.
Eu acredito que ocorrências assim se devem principalmente à sensação de impunidade que reina solta. Se houvesse um acompanhamento que punisse os responsáveis por situações como essas, nossos ouvidos ficariam mais sossegados e a PM poderia cuidar daquilo que realmente é sua função: combater o crime.
A tarefa de cuidar dos excessos de barulho seria do Psiu, mas para isso seria necessário um investimento real para capacitar a equipe para cuidar não só de bares e igrejas já estabelecidos mas também de ocorrências eventuais, com agilidade e eficiência
Alô, governantes: quando isso vai acontecer?
Até onde vai chegar essa sensação de "tudo é permitido" em que vivemos?
Por último, não custa lembrar que muitos desses problemas são decorrentes de uma educação muito deficiente. Um investimento nas nossas escolas públicas certamente contribuiria muito para termos uma convivência mais respeitosa e silenciosa nas cidades em que vivemos.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Vovó viu a vuvuzela.


Já começo avisando: eu não gosto de futebol. Não tenho um time preferido e praticamente me obrigo a ver os jogos do Brasil na Copa. Geralmente enquanto faço alguma outra coisa pra me distrair do tédio que aqueles 90 minutos me causam. Não deixo de assistir porque também não quero ficar de fora dos papos e noticiários, que em época de Copa só versam sobre esse tema.
Agora em 2010, a reboque das conversas e notícias, surgiu a palavra "vuvuzela", que eu nunca tinha ouvido antes. Lá fui eu em busca de informações, portanto!
Descobri graças ao Google que se trata de uma corneta usada na África do Sul, durante os jogos de futebol. Até aí, nada de novo.
As novidades preocupantes apareceram depois, quando achei algumas notícias relacionadas ao volume do ruído de uma vuvuzela: 114 decibéis. Tocando simultaneamente, chegam a 127 decibéis. Muito mais do que um helicóptero decolando (98 decibéis), do que o trânsito infernal de São Paulo (média de 80 decibéis na Marginal do Tietê). Tambores chegam a 122 decibéis. Apitos a 121.
Segundo informações do Robert Beiny que encontrei aqui, numa pessoa exposta a som de volume superior a 100 decibéis a perda auditiva pode acontecer depois de apenas 15 minutos.
Agora imaginem as pessoas expostas durante 90 minutos a essa orquestra de vuvuzelas nos estádios!!!
Segundo a Norma Regulamentadora 15 do Ministério do Trabalho e Emprego, a tolerância humana para sons altos como o da vuvuzela é de apenas 8 minutos. A mesma norma afirma que é proibido expor qualquer pessoa a níveis de ruído acima de 115 decibéis sem proteção no ouvido. Essas normas existem para proteger as pessoas da surdez, mas parece que ninguém da FIFA pensou nisso quando autorizou o uso das vuvuzelas nos estádios da Copa.
Alguns afirmam que a vuvuzela é um instrumento africano tradicional e que impedir o seu uso seria uma violência cultural... Se o critério é só esse, vamos aceitar outras "manifestações culturais" violentas, como a mutilação genital feminina, tradicional em muitos países da África, por exemplo, né?
Pelo menos fica o consolo de que há algumas campanhas para banir esse costume e livrar nossos ouvidos da surdez iminente. Uma delas pode ser encontrada no site vuvuzelas.org, infelizmente disponível apenas em alemão. A campanha deles usa este banner, que coloco aqui pra quem quiser aderir:

É isso aí: por um mundo mais silencioso, fora com as vuvuzelas. Talvez assim eu até tenha uma objeção a menos quanto a ver os jogos da Copa...