domingo, 16 de setembro de 2012

Efeitos colaterais

Já faz algum tempo, publiquei um post (Há bens que vêm para o mal?) sobre o tema de como as calçadas novas da Avenida Paulista acabaram tendo um efeito colateral indesejado: skatistas, patinadores e ciclistas viram naquele piso lisinho o cenário perfeito para treinar manobras arriscadas em meio aos inúmeros pedestres que caminham sempre por ali. Uma situação perigosa que até agora não recebeu nenhuma atenção da prefeitura.
Mas tem uma outra situação que, para mim, é bastante complicada e que, segundo meu ponto de vista, também nasceu de uma ideia boa. Aliás, de duas ideias boas.
Explico melhor.
Nos últimos anos, vêm prosperando as leis que proíbem fumar em lugares fechados. Nossos pulmões de não fumantes (ou de ex-fumantes, no meu caso) agradecem. Só que nada foi feito para resolver o que fazer com os fumantes, expulsos dos restaurantes e bares. Ficaram relegados às calçadas, às ruas, que se transformaram todas em fumódromos improvisados.
Acontece que beber ou comer num espaço interno e fumar num espaço externo nem sempre é uma operação fácil. Resultado: muitos bares com ocupação maior nas calçadas do que dentro. E todo mundo bebendo e fumando, feliz da vida, nas calçadas.
Coisa semelhante aconteceu em decorrência das leis que impedem menores de idade de beber. Nenhum bar ou restaurante serve bebidas alcoólicas sem comprovação de idade. Resultado: grupos de adolescentes reúnem-se, arranjam algum jeitinho de comprar bebidas e ir beber na rua, longe da fiscalização.
Ou seja, as calçadas viraram espaço preferencial de convivência desses dois grupos privados da possibilidade de beber num ambiente externo: ou pela limitação da idade ou pela necessidade inadiável de um cigarrinho.
Mas onde estaria o problema, se a rua é pública? Aí é que entra a minha costumeira rabugice: no barulho gerado por essas reuniões ao ar livre. Todo mundo bebendo, feliz, falando alto, rindo, até de madrugada. Mas a chata aqui tem sono. A chata aqui trabalhou o dia inteiro e está cansada. A chata aqui tem de trabalhar cedinho no outro dia. E a chata aqui não consegue dormir por causa da transformação das calçadas das cidades em bares ao ar livre.
Ah, e tem mais uma: os bares ao lar livre têm até trilha sonora, graças ao costume de ligar o som do carro bem alto pra fazer música ambiente. Pronto, ninguém mais dorme enquanto a noitada das calçadas não terminar.
Pelamordedeus, não estou fazendo campanha contra bebida ou cigarro. Quem quer beber, beba. Quem quer fumar, fume. Não tenho nada com isso.
Minha campanha é apenas em favor de um mundo mais silencioso, para que velhinhas chatas e que trabalham em horário comercial, como eu, possam desfrutar de seu sono reparador durante a noite. Não é muito, né?


sábado, 1 de setembro de 2012

Viajando pelo século XVIII

Um grupo de 7 blogueiras decidiu essa semana fazer uma blogagem coletiva, com o tema "5 livros que marcaram nossa vida de leitoras". A Mari Campos, do blog Pelo mundo é uma dessas blogueiras. Lendo esse post dela, tive a ideia de escrever sobre uma relação entre literatura e viagem que pra mim sempre foi muito forte, mas sobre a qual ainda não falei.
Como alguns já devem saber, sou apaixonada pela poesia de Cecília Meireles. Entre os livros que ela escreveu, está o famoso Romanceiro da Inconfidência, publicado em 1953.



A ideia de escrever o livro, conta a própria Cecília, nasceu de uma viagem a Ouro Preto, no início dos anos 40, ocasião em que ela se sentiu transportada ao século XVIII. A partir daí, surgiu uma paixão que durante 10 anos a levou a pesquisar os acontecimentos da Inconfidência Mineira e escrever o livro.
Minha primeira viagem às cidades históricas de Minas Gerais, portanto, nasceu já dessa relação entre Cecília e aqueles lugares.
Sempre que lá estive carreguei comigo um exemplar do Romanceiro da Inconfidência. Tem outro gosto ler aqueles poemas nos lugares onde aqueles eventos aconteceram. Vagava pelas ladeiras, me sentava à frente das igrejas e casarões e lia, lia, lia.
Estar em Ouro Preto, Tiradentes, São João Del Rey, Mariana, Sabará e não ter comigo os poemas de Cecília estava fora de cogitação. Na mala, sempre ia o volumezinho!
Nas minhas aulas de literatura, sempre faço campanha para que meus alunos conheçam essas cidades, porque acredito que nenhum brasileiro pode deixar de ter essa experiência do Brasil.
Vai daí que, há alguns anos, um grupo de alunos decidiu ir para Ouro Preto no final do ano letivo. Eles me propuseram, então, ir com eles e fazer essas leituras de poemas nos passeios do grupo pela cidade.
Eu fui, e foi muito emocionante. Ler os poemas em silêncio, só para mim, tinha um sentido. Lê-los em voz alta, diante dos alunos e dos monumentos, tinha um impacto ampliado sobre mim.
Na casa de Tomás Antônio Gonzaga, o Dirceu, por exemplo, lia uns dos poemas intitulados "Cenário": No jardim que foi de Gonzaga, / a pedra é triste, a flor é débil, / há na luz uma cor amarga."
Diante das escadas da Matriz de Nossa Senhora da Conceição, vendo ao fim da ladeira a casa de Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília, lia o tristíssimo poema "Retrato de Marília em Antônio Dias", que a  descreve já velhinha, subindo a ladeira para ir à missa naquela mesma igreja onde depois seria sepultada.
Mas o momento mais emocionante dessa viagem foi quando, diante das madeiras que dizem ter sido as da forca onde foi morto Tiradentes, li o trecho do "Romance LXIII ou do silêncio do alferes". Depois de ler a última estrofe desse trecho, que inclui a passagem da morte de Tiradentes ("Já lhe vão tirando a vida. / Já tem a vida tirada. / Agora é puro silêncio, / repartido aos quatro ventos, / já sem lembrança de nada."), sem nenhuma combinação prévia, soou um sino muito próximo, talvez da vizinha Igreja do Carmo. Foi um momento mágico, que deixou a todos nós surpresos e emocionados.
No ano seguinte, voltei às cidades históricas com alguns amigos. Dessa vez, o momento mágico aconteceu em Tiradentes. Lá, diante da casa do Padre Toledo, onde dizem ter acontecido algumas das reuniões dos conjurados, li o "Romance XXIV ou da Bandeira da Inconfidência": "Através de grossas portas, / à luz de velas acesas, / brilham fardas e casacas, / junto com batinas pretas." Enquanto fazia a leitura, começou a tocar num alto-falante próximo uma música barroca que tinha tudo a ver com aquele clima. Depois que terminei a leitura, descobrimos que a música antecedia um anúncio fúnebre, que começou logo depois de encerrado o poema. Parecia, de novo, tudo combinado com algum fantasma dos inconfidentes ou de Cecília Meireles!
Agora em julho deste ano, voltei mais uma vez com meus alunos. Foi de novo uma sucessão de momentos mágicos. Para os alunos, ficou claro que algum fantasma nos acompanhava quando, ao terminar minha preleção inicial, antes de entrarmos no Museu da Inconfidência, novamente o sino da Igreja do Carmo fez sua participação especial!
Enfim, para a minha experiência, as cidades históricas de Minas Gerais e o Romanceiro da Inconfidência, de Cecília Meireles, são indissociáveis. Recomendo a quem queira experimentar. Mas cuidado: coisas mágicas costumam acontecer!


Lendo para os alunos na primeira etapa, diante da Igreja de São Francisco de Assis, em 2012. Foto de Carmem Almeida.