quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Minha cidade natal

Quando eu era adolescente, fiz certa vez um poema-piada com a cidade onde nasci, chamada Socorro: "Só corro / da minha cidade natal".
A piada serviu mais para provocar meu pai que, como eu, tinha nascido ali. Mas, ao contrário dele, eu praticamente não morei lá, já que meus pais se mudaram da cidade quando eu ainda era bebê.
Quando meu pai se aposentou, minha mãe e ele foram moram lá, de novo. Minha mãe, hoje viúva, continua na mesma casa onde meu pai nasceu, uma daquelas casas antigas, com as janelas dos quartos praticamente na calçada.
Quando vou visitar minha mãe, acho que fica mais claro porque criei esta Psiulândia: acho que não há lugar mais barulhento na face da terra do que Socorro.
Mas devo confessar que Socorro se supera a cada visita. Para provar, conto algumas ocorrências deste último fim de semana.
Cheguei lá na hora do almoço, no sábado. Logo no início da tarde, minha mãe e eu fomos surpreendidas com a passagem de um gigantesco trio elétrico na frente de casa. O som fazia tremer as paredes. Em casa, ninguém conseguia se fazer ouvir. Naquela rua estreita, parecia que o caminhão passava dentro de casa. O som era música gospel.
Atrás dele, vinham as pessoas:


Sim, era a Sétima Marcha para Jesus! Depois que o trio e as pessoas passaram, as coisas se acalmaram um pouco. Só continuaram os inevitáveis carros com som alto que passam regularmente pela rua.
Aliás, mais tarde fui dar uma volta a pé pela cidade e observei: acho que passaram uns 5 carros enfileirados com som alto, daqueles alto-falantes com subwoofer poderoso. Parece que fazer barulho com o carro é um esporte municipal.
No final do dia, uma amiga da minha mãe passou por lá e comentou: hoje tem música na praça, estão montando um palco. Detalhe: a casa da minha mãe fica a menos de cem metros de distância da praça da matriz.
Dito e feito: às 9 da noite começou o show, em volume audível na casa toda. Só acabou quando já era quase uma da manhã. Dormir pra quê, né?
Ah, mas o pior ainda estava por vir! Como eu disse, Socorro se supera a cada visita! No domingo, eu descobri que agora a nova moda por lá, em lugar de propaganda sonora em carros, é a propaganda sonora feita por aviões! Sim, acreditem: um teco-teco fica sobrevoando a cidade com um alto-falante anunciando as ofertas das lojas! É inacreditável! O barulho vem de todos os lados, até do alto! Será que é por isso que a cidade se chama Socorro???
Só pra concluir, ainda pra provar como essa minha cidade sempre me surpreende, descobri que há uma nova marca local de cerveja. O nome? Vejam com seus próprios olhos, porque eu tenho pudor de escrever:



É ou não é pra me ufanar da terra em que nasci?

sábado, 7 de setembro de 2013

Carta para a terra pura

Querido Rodrigo, querido Senshô, hoje se completam os 49 dias desde que você se foi. Alguma razão devem ter os budistas (como você) para entender que esse é o prazo de que a gente precisa pra entender que as coisas nunca mais serão como foram.
A saudade da sua presença já achou seu lugar dentro da gente e já se instalou ali pra nunca mais sair.
Já não estranho mais quando me dou conta de que faz tempo que você não aparece na minha timeline do twitter ou do facebook. Continua sendo muito triste, mas ficou uma coisa normal também. Desgraçadamente normal.
Mas resolvi escrever essa carta pra você pra te contar o que andou acontecendo nesses 49 dias. Achei que você gostaria de saber.
Começo por te contar que no dia da cerimônia budista apareceu tanta gente de tantos lugares que ainda me espanta lembrar. Foi um ritual triste mas lindo, porque dava pra ver a força do afeto que reuniu todo mundo. Tinha até gente que não chegou a te conhecer pessoalmente, mas que estava ali, sentindo a sua falta.
Você não imagina como a sua morte aproximou um monte de gente que talvez não tivesse se conhecido em outra circunstância. É estranho, mas me parece coerente com o tipo de pessoa que você foi. Muita gente se conheceu e ficou amigo nesse dia.
Acho que isso aconteceu, também, porque desde que você se foi parece que ficamos todos muito à flor da pele por aqui. Toda hora alguém surge no twitter lembrando de você. Tem música que faz lembrar você. Tem frase que faz lembrar você. Tem notícia que faz lembrar você. E aí sempre a gente manda a tag #PraSempreSensho. Mas nem precisava, todo mundo do nosso circuito já reconhece na mesma hora a referência mesmo sem citar seu nome.
Outro dia usei a palavra 'adorável' pra definir uma cena que vi em Londres. O Esper matou a charada na mesma hora e reconheceu você ali.
A presidenta fugiu pra dar uma voltinha de moto por Brasília, dizem os jornais. E a gente só pensa que é uma pena não poder ler seus comentários sobre.
A saudade é tanta que volta e meia alguém recupera um tweet antigo seu. Ou uma postagem do seu blog. E é um certo alívio na saudade poder te sentir por perto assim.
Enfim, hoje, 49 dias depois daquele dia tão triste, podemos dizer que a vida segue. O twitter anda bem mais sem graça sem você, mas vamos tocando.
E veja só: o Esper já conseguiu até cozinhar feijão.
Saudade de você.