quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Barulhão bão!

Neste último domingo, assisti pela primeira vez a um espetáculo do grupo inglês Stomp, e fiquei maravilhada. Pra quem não conhece, basta dar uma googlada nesse nome e se divertir. Tem até filmes no YouTube.
São eles também que aparecem numa das propagandas do sistema Dolby de som, nos cinemas. Ficaram famosos fazendo música com latões de lixo presos aos pés, como nesta imagem:



Os caras são bons demais e provam que é possível fazer música com tudo o que consideramos lixo e sucata. Nas mãos - e pés - deles, latões de lixo, placas de trânsito, caixinhas de fósforo, copos de refrigerante, jornal, saco plástico, o próprio corpo, tudo vira instrumento.
Para quem é assim tão rabugenta com o mundo barulhento em que vivemos, foi um alívio assistir àquela apresentação.
Durante o espetáculo, me lembrei muito de um percussionista brasileiro chamado Loop B, a quem, em abril do ano passado, mencionei num post aqui sobre sacos plásticos. Ele faz um trabalho semelhante ao do Stomp, tirando música de qualquer objeto, inclusive de sacos plásticos. Pra quem quiser reler, o (longo) post está neste link.
É sempre reconfortante constatar que, num mundo tão cheio de lixo e barulho, existem pessoas capazes de fazer com que a sucata vire música.
Pra quem se interessar, tem um álbum de fotos que fiz durante o show do Stomp bem aqui.
Além disso, a minha amiga Carla Dias fez um super post no blog dela, ilustrado com algumas das minhas fotos. Pra ler o texto como sempre super inspirado dela, clique aqui.

domingo, 8 de agosto de 2010

Pobre Tiradentes!


Como prometi no post anterior, chegamos à segunda questão. Começo dizendo que eu tenho adoração pelas cidades históricas de Minas, principalmente por Ouro Preto, cidade que me deixa sempre emocionada. Mal começo a enxergar o Itacolomi no horizonte e já fico com os olhos cheios d'água. Ando pelas ruas imaginando tudo o que se passou por lá, olho para as casas e penso no que aquelas paredes centenárias testemunharam, enfim, sou constantemente assombrada pelos fantasmas dos séculos passados que certamente rondam por aquelas ruas.
Enquanto estava lá emocionada, andando pelas ruas, encontrei, com muita frequência, carros com aqueles sons potentes, tocando música ruim em volume tão alto que ninguém consegue mais pensar em nada! Em Mariana, inclusive, no domingo, a apresentação de música barroca com violino acompanhando o maravilhoso órgão Arp Schnitger da Sé teve de ser suspensa por alguns minutos, enquanto passava pela rua um desses chatos ambulantes.
Fiquei até pensando se a vibração poderosa dos sons graves desses alto-falantes não prejudicaria, de alguma maneira, as frágeis testemunhas da nossa história que ainda existem por lá. Será que as pedras e as madeiras do século XVIII não são abaladas por aquela vibração desagradável? Não deve ser à toa que esse gênero de "música" também é chamado de bate-estaca!
Ainda que não haja esse inconveniente, uma coisa certamente é quebrada por esses carros que pululam por Ouro Preto e arredores: a sensação que conseguimos parar um pouco o tempo e sentir de alguma maneira o ambiente, o clima, a energia que andava por aquelas ruas.

Altas capelas cantam-me divinas
fábulas. Torres, santos e cruzeiros
apontam-me altitudes e neblinas.

Ó pontes sobre os córregos! Ó vasta
desolação de ermas, estéreis serras
que o sol frequenta e a ventania gasta!

Teria Cecília Meireles conseguido escrever versos como estes, do Romanceiro da Inconfidência, ao som de um bate-estaca nas ruas de Ouro Preto? Poderia ela imaginar que um dia, mais do que a frequência do sol e a erosão causada pela ventania, a cidade veria a frequência dos carros subindo e descendo as ladeiras com o som nas alturas, com seus bate-estacas desgastando as frágeis pedras históricas que sobreviveram à ventania?