sábado, 31 de julho de 2010

On the road!

No fim de semana passada, Carmem e eu resolvemos fazer um passeio a Mariana, em Minas Gerais, com direito a escapadas pelas vizinhanças, sobretudo a Ouro Preto. A viagem foi ótima e, em seu blog, Carmem contou todas as coisas legais que fizemos por lá. Aqui, entretanto, pra fazer jus ao espírito rabugento do blog, vou falar apenas das coisinhas que me incomodaram na viagem. São basicamente duas. Hoje falo de uma, em outro post eu falo da outra.
Indo às cidades históricas de Minas, o primeiro problema é a forma de chegar lá. No nosso caso, pegamos um voo São Paulo - Belo Horizonte e de lá alugamos um carro para ir até Mariana. Saindo do Aeroporto de Confins, não existe NENHUMA placa indicativa de direção a tomar. Saímos para a direita por puro instinto. Pouco depois, a primeira placa indicava quanto faltava para chegar à "cidade"! Cidade? Qual cidade? Confins? Belo Horizonte? Brasília? Londres? Deduzimos que fosse Belo Horizonte e seguimos em frente. Por sorte, era mesmo. Placas que indicassem a direção a tomar para ir a Ouro Preto, cidade patrimônio da humanidade, nem pensar. Só o GPS podia nos ajudar nessa hora, e foi graças a ele que chegamos ao anel rodoviário de Belo Horizonte, onde, depois de andar bastante, vimos a primeira placa indicando Ouro Preto. (Antes que eu me esqueça, também no caminho de volta dependemos do GPS para encontrar o caminho do Aeroporto de Confins, só muito tardiamente sinalizado.)
Uma vez na estrada, cheia de curvas e quase sempre em pista simples, saltam aos olhos as más condições do asfalto. O limite de velocidade não é obedecido por ninguém, carros, ônibus ou caminhões. Durante todo o trajeto, incluindo ida, volta e passeios na região, não vimos sequer um guarda rodoviário. A sensação é de salve-se quem puder.
Como turista, eu não conhecia bem a estrada. Além disso, com um carro alugado, eu tendia a andar mais devagar. Minha velocidade média, entretanto, ficou em torno de 80 km por hora, velocidade máxima da pista na maior parte do tempo.
Enquanto isso, os carros que se aproximavam atrás de nós acendiam os faróis, forçavam ultrapassagem, e alguns até mesmo me empurravam em direção ao acostamento, já que a ultrapassagem forçada em pontos sem visão muitas vezes incluía dar de cara com outro carro vindo na pista oposta. A solução era empurrar a lerdinha - eu, no caso - para o acostamento, pra dar pra passar todo mundo sem colisão. Recebi buzinadas, faróis altos, xingamentos, fechadas. Tudo porque eu teimava em andar nos 80 km por hora recomendados nas placas.
Até mesmo um carro oficial, do Governo Federal (um SpaceFox placas GMF 5639) passou por nós fazendo ultrapassagens malucas, colocando em risco a segurança dele e a dos carros próximos, aparentemente sem que o motorista se lembrasse de que aquele era um carro a serviço do povo brasileiro.
Pra agravar ainda mais as condições, diversas vezes encontramos cavalos soltos pela pista, colocando em risco a segurança de quem transitava de carro por ali...
É assim que esperamos que os turistas possam conhecer e amar umas de nossas regiões mais bonitas? Com uma estrada apertada, cheia de curvas, com asfalto ruim, sem vigilância e com motoristas suicidas - e homicidas também, claro - soltos por lá? Sinceramente, não dá vontade de voltar nunca mais para aquela região.
Alô governo de Minas Gerais, alô IPHAN, alô Embratur! Vamos lembrar que uma de nossas jóias históricas mais valiosas está esquecida? Que tal um trabalho intensivo para tornar o passeio às cidades históricas uma experiência inesquecível apenas pelas boas lembranças?

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Eu sei o que Gal Costa comeu ontem no jantar!

Ouvi certa vez uma piada da qual gostei muito. Resumidamente, era o seguinte: um náufrago sozinho numa ilha salva outro náufrago, que vinha a ser uma belíssima mulher, atriz famosa. Ela, muito grata, dispõe-se a atender todos os desejos dele, inclusive no campo sexual. Ele fica muito feliz no início, mas alguns dias depois começa a ficar deprimido. A atriz, compadecida, pergunta o que aconteceu e ele disse que tinha um desejo secreto mas não tinha coragem de confessar. Ela se mostra aberta a qualquer coisa, então ele pede que ela se vista de homem, dê uma volta na ilha e e se encontre com ele, como por acaso. Ela atende ao pedido, estranhando um pouco mas curiosa. Quando se encontram, ele logo vai dizendo: "Cara, você não sabe quem eu estou comendo, aquela atriz famosa!"
Sempre achei essa piada muito reveladora de um dos traços mais característicos dos seres humanos, que é um certo exibicionismo. Ok, a piada fala dos homens, mas acho que todos somos assim em maior ou menor grau: boa parte da graça daquilo que fazemos está em poder contar aos outros que fizemos.
Pra mim, isso explica muito do sucesso do Twitter: é possível retransmitir aos amigos, quase em tempo real, as coisas bacanas que fazemos e que queremos que todos saibam. Assim, a timeline do twitter às vezes parece um território encantado, onde todos contamos como é gostoso o prato que estamos comendo naquele momento, naquele restaurante bacana; como o show que estamos vendo está demais; como está lindo o nosso jardim; como o pôr-do-sol visto da nossa janela é deslumbrante; como o lugar para onde viajamos é maravilhoso e assim vai...
Claro que há postagens mais na linha da denúncia: um ônibus flagrado parado em cima da faixa de pedestres, um avião pousado no rio, um prédio em chamas, mas parece mesmo que a maior sensação é poder mostrar aos seus seguidores como você é feliz. A própria palavra "seguidores", aliás, às vezes nos coloca numa posição hierarquicamente superior à dos nossos seguidores. E de hierarquicamente inferiores aos que seguimos, claro.
Eu comecei a usar o Twitter no início do ano passado, justamente quando aquele avião pousou no rio Hudson e notícia com foto apareceu primeiro na postagem de um tuiteiro que passava por lá na hora. Achei muito legal essa possibilidade de compartilhamento quase instantâneo, e na mesma hora criei minha conta. Eu tinha acabado de comprar um smartphone, então logo comecei a usar o Twitter não só no computador mas também - e principalmente - através do Gravity (um ótimo aplicativo do Twitter), no meu celular. Fiquei viciada.
Mas confesso que tenho outro vício: o de pensar sobre as coisas. Então notei que um outro efeito interessante proporcionado pelo Twitter é uma sensação de intimidade - no mais das vezes falsa - com as pessoas que não conhecemos pessoalmente mas que seguimos por ali. Acompanho alguns perfis de celebridades, e confesso que é engraçado, por exemplo, ler Gal Costa contando que vai jantar um caldo verde na companhia de seu filho ou Roberta Sudbrack mostrando uma foto do seu cachorro Frederico passeando pela casa. Acho que esses flagrantes da intimidade dos famosos criam uma falsa sensação de que compartilhamos de seu universo, colocando-nos mais próximos deles.
Ver na minha lista de seguidores o perfil de Yoko Ono, por exemplo, fez com que eu me sentisse poderosíssima... Mas nada como olhar a lista de pessoas que ela segue e ver que sou apenas uma entre quase 350 mil pessoas. Ou seja, quem diz seguir 350 mil pessoas é porque não segue ninguém, né?
Uma outra característica do Twitter são os perfis falsos de celebridades, que muitas vezes são até mais famosos do que os verdadeiros. Existem também as personalidade que só têm vida própria no Twitter.
Quer saber? No fundo, acho que em maior ou menor medida somos todos fakes no Twitter... O jeito é encarar tudo como uma encenação, como de resto é nossa vida toda! Para concluir, um trechinho da "Tabacaria" do Álvaro de Campos que, penso eu, tem tudo a ver com esse assunto:

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.