sexta-feira, 24 de junho de 2011

Minha avó era blogueira?

Hoje o post não é pra reclamar de nada... Será que estou doente?
Mas falando sério, quero contar hoje a história da minha avó materna, que, durante muitos anos manteve um diário. Embora não tivesse nem concluído o terceiro ano primário, minha avó manteve-se fiel à narração do seu cotidiano.
O diário dela não era muito secreto, porque não dava pra imaginar que uma mãe de 9 filhos tivesse assim tanta privacidade para escrever. E quando chegaram os netos, então (entre eles esta xereta que vos escreve), já ficou sabido por muita gente que, lá no meio da bagunça que havia embaixo da escrivaninha dela, havia 3 cadernos com as reflexões da vó.
No dia em que ela morreu (eu estava na faculdade), antes de ir ao velório, eu passei pela casa dela. Fui à escrivaninha, encontrei os cadernos e os escondi na minha mala. Fiquei com medo que algum apressado considerasse aquilo como papel velho e jogasse tudo fora! Deixei um recado, na hora de ir embora, dizendo que os cadernos estavam comigo, que me auto-nomeara guardiã dos mesmos. Quem quisesse ler, era só me pedir, mas a guarda era minha.
Li e reli tantas vezes aquelas páginas que sei muitas passagens de cor.
Vou transcrever algumas, para compartilhar com vocês um pouco das ideias da minha avó blogueira avant la lettre.
Uma anotação típica era assim (ortografia corrigida e atualizada):

22 de maio de 1951, terça-feira
Levantei-me como sempre às 6 horas. Depois do serviço da manhã, fiz pão doce, broa doce, bolo. Para vender, como todos os dias, sorvete. Doces para prendas na quermesse. À noite tivemos visita, depois que saíram ainda fui costurar. Depois de ouvirmos um pouco de rádio fomos dormir, pois estava um frio horrível.

Dá pra perceber por esse trecho como era seu cotidiano de mulher que trabalhava muito!

Olha o dia 10 de julho, do mesmo ano:

Levantei às 6 horas, engarrafamos hoje o vinho de laranjas (...). Depois do jantar eu preparei alho para tempero e fermento para pão e sonhos, e fizemos uma tachada de doce de abóbora. às 23 horas fomos dormir.

A gente fica cansada só de ler, né?
Tem também algumas associações malucas, como a do dia 29 de agosto de 1951:

Plantei hoje violetas dobradas, mandei fazer cuecas para E. [um dos filhos]. Esta noite choveu e trovejou.

Em outras passagens, a gente vê cenas da cidade do interior em que ela viveu:

Dia 8 de setembro de 1951, sábado
Foram todos à missa. Eu não fui, pois tinha muito serviço de manhã. (...) Passamos hoje um grande desgosto: ao passar pela nossa rua a comitiva do Sr. Ademar de Barros, um dos automóveis matou o nosso cãozinho Gip. Foi uma choradeira, um desespero para todos. Passamos um dia de tristezas e contrariedades. Não fomos à procissão nem assistimos aos fogos.

Minha passagem favorita é a do dia 1 de outubro de 1959, uma quinta-feira:

Hoje, faltando dez minutos para as onze, nasceu Ana Maria, primeira filha da A.

É isso mesmo, o meu nascimento está registradinho lá. No dia seguinte, consta que ela e meu avô foram, com alguns parentes, me visitar no hospital (nasci numa cidade vizinha). O triste é que vem depois: no outro dia, meu avô morreu. Ele estava já adoentado, mas a morte foi meio repentina. E ela narra, certamente a posteriori, como foi o momento em que ele morreu. Ainda registra, no final da narrativa: Dia de Santa Terezinha do Menino Jesus (uma das suas santas preferidas), como se estivesse se sentindo traída pela santa a quem relata no diário ter feito muitas novenas nos anos anteriores.
Depois disso, ela quase não registra mais nada, apenas um ou outro episódio que rompe com o cotidiano, como o casamento de algum filho, o nascimento de algum neto. Nessas últimas páginas, o que mais tem é transcrição de poemas que ela lia e dos quais gostava, muitas vezes com alguma intromissão dela no texto. Ou poemas escritos por ela mesma, ao final dos quais escrevia "versos de minha lavra".
Todo mundo na família acha que a gente é meio parecida. Quem me dera! Mas acho que, se minha avó vivesse hoje, certamente seria mesmo blogueira. Então, pra terminar esse post, vou colocar uma foto dela sentadinha justamente naquela escrivaninha onde estavam escondidos os diários. E depois uma foto nossa, pra vocês verem se a gente se parece mesmo!




domingo, 19 de junho de 2011

Mais um rodízio? Ou agora é pra valer?

Já contei em posts anteriores aqui neste blog as histórias de uma vilazinha encravada nas encostas da Avenida 23 de maio, ao lado do Viaduto Paraíso. Pra quem quiser saber mais, este foi o último post e lá tem link para os anteriores.
Pois esses dias, veio a prefeitura mais uma vez visitar a vilazinha. Colocaram um caminhão na calçada da Avenida 23 de maio e começaram a remover o lixo. Carmem, do De uns tempos pra cá (blog onde eu publiquei como convidada o primeiro post desta série), passou por lá e tirou a primeira foto:



No dia seguinte, eu vi que o trabalho de remoção do lixo continuava e fotografei também:


Só que eles estavam também levando embora os moradores de lá. Havia alguns funcionários da prefeitura, com coletes do Serviço Social, levando embora as pessoas, enquanto os funcionários tiravam o lixo e destruíam as moradias.
O cenário final era assim, terra quase arrasada:


Mas quem prestar atenção na próxima foto, vai entender porque usei a palavra "quase":


Deu pra notar que já tem uma pessoa ali no fundo? Tem também alguns carrinhos de supermercado, pra quem tem a vista bem boa pra enxergar detalhes numa foto ruinzinha como essa, tirada pelo Ipod.
Ou seja, é bem provável que seja apenas mais um rodízio, e que novos moradores venham a se instalar ali. Vamos aguardar os próximos capítulos!