sexta-feira, 30 de dezembro de 2011

3 anos de rabugice

Post bem rápido, só pra lembrar que hoje Psiulândia completa 3 anos de existência! Pois é, 3 anos e quase nada mudou no mundo barulhento em que vivemos! Aliás, algumas coisas talvez tenham piorado... Mas a gente continua brigando!
No ano que vem tem mais rabugice!
E tomara que em 2012 alguma coisinha, por menor que seja, mude pra melhor, porque eu sou rabugenta mas também sou otimista, né?

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Meus 7 links

Minha amiga Cláudia, do blog Aprendiz de viajante, fez uma proposta interessante neste post aqui: ela indicaria 7 links de seu próprio blog e depois 7 blogueiros para fazerem o mesmo, de forma a alcançar um número cada vez maior de pessoas.
Quem acabou me indicando pra participar foi a Carmem, do De uns tempos pra cá.
Assim, aqui vão meus 7 links e a minha lista de 7 blogueiros indicados pra levar adiante o projeto!

1. Meu post mais bonito:
Acho um pouco complicado indicar isso, mas acho que escolheria o post que não tem nada a ver com o tom rabugento do blog: o que dediquei à Toní, que foi minha psicóloga nos anos 80 e que faleceu agora em 2011.

2. Meu post mais popular:
Isso fica mais fácil: o que teve mais pageviews foi um em que reclamei de gente que fala alto demais.

3. Meu post que gerou mais controvérsia:
Foi o mesmo anterior, pois rolou até bate-boca nos comentários, de gente reclamando que falar alto é uma coisa boa...

4. Meu post que ajudou mais gente:
Será que a minha rabugice ajuda alguém? De qualquer maneira, participei de uma blogagem coletiva e acho que o texto que escrevi pode ter alguma serventia!

5. Meu post cujo sucesso me surpreendeu: 
Ah, sem dúvida o post sobre os diários da minha avó!

6. Meu post que não recebeu a atenção que deveria:
Provavelmente o texto que escrevi sobre uma cilada em que caí quando decidi comprar um netbook pela internet numa loja supostamente honesta.

7. Meu post que mais me dá orgulho:
Gosto especialmente de um post em que devaneio sobre o Twitter e o lugar que ele ocupa nas nossas vidas.


Para dar continuidade a esse projeto da Cláudia, indico 7 blogueiros que admiro:

1. Sandro Fortunato, do Sempre algo a dizer.
2. Janaína Leslão, do Devaneios e companhia.
3. Cadu Bezerra, do No centro das minhas atenções.
4. Lola Aronovich, do Escreva, Lola, escreva.
5.Vilmar Ledesma, do Coisas de Ledesma..
6. Leo Chioda, do Café Tarot.
7. Alexey Dodsworth, do Devir.


terça-feira, 15 de novembro de 2011

Educação & barbárie.

Há algum tempo, publiquei aqui mesmo neste blog, um post sobre como a presença de uma faculdade nas proximidades do terminal Barra Funda estava transformando negativamente o local, com a proliferação de bares, excesso de carros, superlotação do Terminal etc. Naquele texto, eu dizia que, segundo meu ponto de vista, não era à toa que os empresários da educação superior em São Paulo procuravam montar seus câmpus na proximidade de estações de metrô, para facilitar o acesso dos alunos às salas de aula, mas sem nenhum planejamento, gerando apenas uma superlotação nos transportes daquela região. O transporte público a serviço do lucro privado, sem nenhuma espécie de contrapartida dos empresários para melhorar o entorno de seus câmpus.
Pois bem, quando estou em São Paulo, moro bem ao lado de uma estação de metrô, a Paraíso. Acompanhei, pela janela do apartamento, a construção de dois enormes prédios de uma dessas faculdades particulares. Dá pra ver daqui as salas de aula em funcionamento, agora que tudo já está pronto.
Mas o mais grave é que dá pra ver também a deterioração da vizinhança, desde a chegada da faculdade, sendo o sinal mais evidente o aumento do número de bares ao redor dos prédios. Estabelecimentos comerciais fecharam, foram reformados e transformados em bares. À noite, sobretudo depois das 9, ficam cheios de alunos. Como os espaços são pequenos, fica muita gente em pé, na rua (também pra poder fumar).
As salas de aula vão ficando vazias, enquanto a rua enche de gente com copo de cerveja na mão. É raro ver alguma turma com aulas depois das 9h30. As 3 faixas de trânsito da Vergueiro se reduzem a uma, pois as demais ficam cheias de alunos bebendo, expondo-se a um atropelamento.
Alguns bares têm música ao vivo, que é ouvida na vizinhança toda, até a uma da manhã, religiosamente. Só param mesmo por medo do Psiu.
Às sextas é pior: as comemorações pela chegada do fim de semana estendem-se até mais tarde e sempre aparecem aqueles carros que têm altofalantes poderosos, tocando música sempre ruim. Como são móveis, não ficam sujeitos à fiscalização do Psiu, então não têm hora pra parar de fazer barulho.
Nunca aparece ninguém pra botar um pouco de ordem na confusão. Acho que só mesmo no dia em que algum aluno for atropelado numa dessas faixas de trânsito ocupadas pelos estudantes. Enquanto isso não acontecer, resta a alternativa de dormir com tampões nas orelhas toda sexta-feira. A quem recorrer?
No mundo que eu imagino, a chegada de uma faculdade à vizinhança seria motivo de alegria. No mundo em que eu vivo, junto com a educação chega a barbárie.

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Muito aquém de um jardim

Quem acompanha este blog já deve ter lido alguns dos posts em que eu falei sobre um espaço urbano bastante conturbado, situado em cima do Viaduto Paraíso, nas encostas do vale que forma a Avenida 23 de maio.
Já foram 4 postagens aqui no blog (todas acessíveis através do marcador Viaduto Paraíso) que se seguiram à primeira, que fiz como convidada no blog da Carmem (De uns tempos pra cá).
Eu me lembro de que, na ocasião do último post (19 de junho de 2011), havia uma grande movimentação de funcionários da prefeitura, expulsando os moradores, derrubando as casinhas improvisadas e limpando o lixo acumulado. Não resisti e perguntei a um deles o que haveria ali. O funcionário me disse que seria uma praça.
Até fiquei mais feliz, afinal aquele espaço teria ainda uma finalidade pública.
Sou velhinha, então, na minha cabeça, praça tem aquela cara da música antiga: bancos, flores, jardins. Um lugar agradável para se sentar, encontrar pessoas, ler um livro, ver o movimento da cidade.
Hoje, mais de 3 meses depois, passei por lá. Aquele espaço, antes ocupado por casinhas improvisadas, agora é terra arrasada. Assim:


Dá pra ver que ainda tem uns restos do entulho, né?
O espaço recebeu umas grades improvisadas (como aquelas casinhas que lá estavam), feitas de pedaços de grades usadas, parecendo material de demolição. Nem uma pintura as pobres mereceram:


O pessoal que passa por ali, não podendo usar o espaço de outra maneira, já começou a usá-lo da forma que parece combinar mais com a "urbanização" escolhida pela prefeitura: lixo. Já tem garrafa pet vazia, pedaços de madeira, maços de cigarro etc. Olha só um detalhe:


Pois é, prefeito, eu acho tudo isso um desleixo, um desperdício de espaço público numa cidade tão carente deles. Se era pra deixar assim, uma terra arrasada cercada de grades improvisadas, era melhor ter deixado as famílias morando ali, né? Pelo menos aquele território tinha uma função social.
Agora, não serve pra nada. Quando muito, serve de depósito de lixo.
Obrigada, outra vez, senhor alcaide, por dar à cidade mais um espaço inútil. E feio.

quarta-feira, 21 de setembro de 2011

Toní


Esta é uma postagem atípica, em que não vou reclamar de nada, mas sim expressar uma gratidão a alguém a quem jamais pude fazer saber o quanto lhe sou devedora.
Em meados dos anos 80, eu passei por um período de crise. Muitas mudanças aconteceram, e eu estava bastante confusa sobre os rumos que daria à minha vida.
Foi então que decidi procurar ajuda de uma psicóloga. Pergunta daqui, pergunta de lá, acabei chegando à Toní. Começava ali uma relação que se estenderia por longos 7 anos.
No início, eu relutei muito, usando todo o meu arsenal de racionalidade e me armando contra qualquer tentativa de interpretação das minhas palavras, dos meus sonhos, das minhas atitudes.
Houve um dia, entretanto, em que Toní finalmente me fez ver que a resistência também significava. A partir dali, tudo mudou.
Uma das lembranças mais vívidas que tenho é a de Toní tentando me convencer a adotar a aquarela como uma forma de expressão menos controlada racionalmente. Segundo ela, como sempre trabalhei com as palavras, a expressão verbal em mim era sempre produto de uma elaboração racional, mantida sempre sob controle absoluto.
Lidei com aquelas cores que escorriam junto com a água, mas nunca senti que tenha feito algo que valesse a pena naquelas folhas de papel canson.
Os anos se passaram, eu superei a crise e, 7 anos depois de iniciadas as sessões, Toní e eu chegamos à conclusão de que já era hora de tocar sozinha a minha vida.
Desde então, tenho passado por situações muito boas e outras muito ruins, mas tenho conseguido manter um razoável equilíbrio. E sinto que, na raiz dessa estabilidade, estão aqueles 7 anos de sessões com a Toní, aprendendo a me conhecer melhor e a gostar mais de mim.
Quando penso nela, hoje, tenho um sentimento de gratidão muito grande, mas tenho também a certeza de que não poderei nunca expressar isso para ela.
Decidi fazer então este post, para pelo menos ficar aqui um testemunho público dessa gratidão.
Para terminar, queria também dizer que penso finalmente ter encontrado uma forma de expressão não verbal e portanto menos controlada racionalmente: a fotografia. A câmera, para mim, ocupa o lugar que imagino ter sido aquele pensado por Toní quando me sugeriu a aquarela: a expressão das minhas intuições e da minha sensibilidade, não controladas racionalmente. Mais uma razão para ser grata à Toní.
Por isso é que este post começa e termina com fotos. Essas imagens, para mim, representam momentos em que consegui produzir quadros que me agradam, mesmo sem ter noção de como isso aconteceu. Intuitivamente, apertei o botão da câmera com o enquadramento que escolhi sem pensar muito, e o resultado me deixou feliz. Era isso, então, Toní?
Obrigada, mais uma vez.



PS - Quando escrevi este post, a Toní estava num hospital, em estado terminal. Eu não quis falar disso no texto, para evitar uma exposição inútil dessa situação tão difícil que ela vivia. Ontem, domingo, 25 de setembro, ela faleceu.

domingo, 4 de setembro de 2011

Silêncio made in Japan

Este é o primeiro guest post da Psiulândia, e foi escrito por minha amiga Marcie (@Marcie14), autora do ótimo Abrindo o bico. Ela esteve recentemente em Tóquio e de lá mandou uma série de tweets com a hashtag #tokyorules. Como em muitos deles ela comentava a diferença entre os ruídos urbanos de Tóquio e os de Nova Iorque ou São Paulo, achei que seria o caso de pedir a ela um depoimento mais extenso sobre essas impressões. Para minha surpresa, ela não só aceitou como hoje mesmo, bem cedinho, me mandou o texto que segue. Obrigada, Marcie, rabugenta honorária da Psiulândia! Fico honrada com a sua participação por aqui. Sinta-se à vontade para outras participações!






Imagine uma metrópole onde o Psiulândia não precisaria distribuir tantos psius. Uma cidade onde, na verdade, a Ana teria que inventar outro assunto para blogar. Por tudo que vi (embora infelizmente tenha visto pouco) Tóquio se encaixa perfeitamente nessa categoria.  No começo, eu não estava entendendo do que sentia falta. Até que me dei conta: não tinha escutado uma buzina sequer! Não tinha ouvido um escasso ringtone; e menos ainda um desses abomináveis Nextel. E o mais engraçado é que estava vendo várias pessoas falando ao telefone. A conclusão óbvia é que eu havia desembarcado num país que ainda cultiva essa coisa rara chamado silêncio.
Claro que já tinha lido um pouco sobre os usos e costumes locais: a lição de casa que todo mundo faz (ou deveria fazer) antes de viajar. E já sabia das regras básicas de etiqueta relativas ao tema: não falar alto, manter os celulares no mode silencioso, não usar o aparelho em lugares fechados (restaurantes, trens, metrôs), etc, etc. Mas não imaginei que a coisa fosse levada tão a sério. A ponto de eu poder afirmar que, no Japão, ouvir conversa alheia é um passatempo destinado ao fracasso.
Sei que é engraçado eu estar aqui falando não do que vi, mas sim do que não ouvi em Tóquio. Mas a idéia é essa, certo? Não ouvi os desagradáveis ruídos que se somam aos ruídos inevitáveis das grandes cidades. Claro que há sirenes; claro que há metrôs e trens se deslocando em alta velocidade; claro que há caminhões; claro que há construções (afinal, Tóquio não é exatamente um vilarejo Amish), mas é como se, justamente por causa disso, a cidade decidisse não acrescentar ruído ao ruído. Ah, sim, posando de exceção, existem sempre os karaokês – mas aí já é pra quem esteja procurando barulho...
Moral da história? Por mais que eu tenha amado o Japão, acho que não conseguiria morar lá. E acho que a Ana também não. Afinal, do que é que a gente iria reclamar?

terça-feira, 19 de julho de 2011

Umas com tanto, outras com nada

Introdução:

Semanas atrás, numa tweeting conversation entre a Cláudia (link abaixo), Natalie (link abaixo), Carina (link abaixo), Patricia (link abaixo), Carmem (link abaixo) e Marcie (link abaixo), surgiu a ideia de listar os lugares que cada uma considerava "viu-tá-visto". Aí a conversa evoluiu e decidiram fazer também uma segunda lista - com cidades ou países para onde voltariam sempre. Como a idéia parecia boa, uma comentou aqui, outra comentou ali… no fim, a notícia se espalhou e conquistou dezenas de adeptos. Diante disso, decidiu-se fazer uma blogagem coletiva.

Segue o meu texto.

Uma das situações mais complicadas para mim é quando alguém me pergunta de onde eu sou. Geralmente respondo com outra pergunta, ou uma série de perguntas. Onde nasci, nunca morei. Onde moro, não me sinto enraizada. Minha vida, da mais tenra infância até completar umas três décadas de existência, sempre foi povoada de malas, caixas e caminhões de mudança.

Acho que esse início nômade de vida me deixou o gosto pela estrada. Sempre que posso, viajo.

Agora, por exemplo, encontro-me em plena viagem, escrevendo no aeroporto, enquanto espero a próxima conexão.

Daí que, pensando nas viagens, elaborei uma pequena hipótese de classificação de cidades. Começa com uma divisão em dois grandes grupos: cidades que chamarei de “cenográficas” e as de “vida real”.

As cenográficas são aquelas em que o conjunto de locais de interesse turístico fica mais ou menos agrupado, permitindo que o turista passeie por ali apenas no exercício de sua atividade turística, praticamente sem contato com a dinâmica da vida de quem mora ali. Acabo de sair de uma cidade assim: Praga. No Brasil, podemos pensar em Tiradentes, até mesmo Ouro Preto.

As cidades da vida real, por outro lado, são aquelas em que o turista, mesmo fazendo seu périplo pelos locais que aparecem nos guias, tem contato com a dinâmica da vida real dos moradores. Minha cidade preferida no mundo – até aqui – é Madri, e lá acontece exatamente isso: a gente vai de um ponto turístico ao outro, mas percebe que há uma vida real acontecendo ali à sua volta. Essa para mim é a diferença fundamental entre Madri e Barcelona: nesta última, dá pra esquecer que há vida “normal” fora do circuito turístico.

Quando viajo, tenho certa preferência pelas cidades do segundo tipo, embora não deixe de apreciar uma bela cidade cenográfica, como Ouro Preto ou Barcelona, mesmo que muito frequentemente me assalte a sensação de que tudo ali está preparado para arrancar do turista cada centavo de seu dinheiro...

Essas cidades que chamei de “vida real” poderiam ser divididas em dois outros grupos: aquelas que se abrem fácil para que o turista se integre ao seu ritmo (como sinto que acontece na minha relação com Madri e que aconteceu recentemente também com Budapeste) e aquelas que tornam a vida do turista mais difícil, como sinto que aconteceu comigo, (para pegar outro exemplo recente) com Viena.

Nessas cidades, a gente sofre pra entender como ir de um lugar ao outro, parece que a cidade resiste a entregar-se ao nosso desfrute. Sistema de transporte confuso, informações apenas na língua local, falta de clareza nos mapas são algumas coisas que me fazem sentir não acolhida pela cidade. E, nos tempos que vivemos, um outro inconveniente freqüente dessas cidades é não oferecer com muita facilidade wifi grátis.

Enfim, cidades assim são aquelas em que eu saio de lá pensando: ufa, que bom, está vista e não preciso mais voltar aqui!

Já as cidades mais acolhedoras me fazem querer voltar sempre que possível. Não é por outra razão que, sempre que vou para a Europa, faço de Madri meu ponto de chegada e partida. Ali me sinto quase em casa, embora esteja viajando.

LINKS DOS BLOGS PARTICIPANTES:


http://www.abrindoobico.com
(Marcie)

http://www.aprendizdeviajante.com (Claudia)

http://www.big-trip.net

http://www.cadernotiahelo.blogspot.com

http://www.deunstempospraca.blogspot.com (Carmem)

http://www.dicasroteirosviagens.com

http://www.dondeandoporai.com.br

http://www.drieverywhere.net

http://www.guardandomem.blogspot.com

http://www.inquietosblog.com.br

http://www.jrviajando.com

http://www.ladyrasta.com.br

http://www.luciamalla.com

http://www.majots.wordpress.com

http://www.miblogito.blogspot.com/

http://www.mauoscar.com

http://www.mikix.com

http://www.olhandomundo.wordpress.com

http://www.pelo-mundo.blogspot.com

http://www.oqueeufiznasferias.com.br/blog

http://www.psiulandia.blogspot.com

http:///www.rosmarinoeoutrostemperos.blogspot.com

http://www.sambalele.everyblue.com

http://www.senzatia.com (Carina)

http://www.sundaycooks.com (Natalie)

http://www.turomaquia.com (Patricia)

http://www.viagempelomundo.com

http://www.viaggiando.com.br

http://www.viajarepensar.blogspot.com

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Minha avó era blogueira?

Hoje o post não é pra reclamar de nada... Será que estou doente?
Mas falando sério, quero contar hoje a história da minha avó materna, que, durante muitos anos manteve um diário. Embora não tivesse nem concluído o terceiro ano primário, minha avó manteve-se fiel à narração do seu cotidiano.
O diário dela não era muito secreto, porque não dava pra imaginar que uma mãe de 9 filhos tivesse assim tanta privacidade para escrever. E quando chegaram os netos, então (entre eles esta xereta que vos escreve), já ficou sabido por muita gente que, lá no meio da bagunça que havia embaixo da escrivaninha dela, havia 3 cadernos com as reflexões da vó.
No dia em que ela morreu (eu estava na faculdade), antes de ir ao velório, eu passei pela casa dela. Fui à escrivaninha, encontrei os cadernos e os escondi na minha mala. Fiquei com medo que algum apressado considerasse aquilo como papel velho e jogasse tudo fora! Deixei um recado, na hora de ir embora, dizendo que os cadernos estavam comigo, que me auto-nomeara guardiã dos mesmos. Quem quisesse ler, era só me pedir, mas a guarda era minha.
Li e reli tantas vezes aquelas páginas que sei muitas passagens de cor.
Vou transcrever algumas, para compartilhar com vocês um pouco das ideias da minha avó blogueira avant la lettre.
Uma anotação típica era assim (ortografia corrigida e atualizada):

22 de maio de 1951, terça-feira
Levantei-me como sempre às 6 horas. Depois do serviço da manhã, fiz pão doce, broa doce, bolo. Para vender, como todos os dias, sorvete. Doces para prendas na quermesse. À noite tivemos visita, depois que saíram ainda fui costurar. Depois de ouvirmos um pouco de rádio fomos dormir, pois estava um frio horrível.

Dá pra perceber por esse trecho como era seu cotidiano de mulher que trabalhava muito!

Olha o dia 10 de julho, do mesmo ano:

Levantei às 6 horas, engarrafamos hoje o vinho de laranjas (...). Depois do jantar eu preparei alho para tempero e fermento para pão e sonhos, e fizemos uma tachada de doce de abóbora. às 23 horas fomos dormir.

A gente fica cansada só de ler, né?
Tem também algumas associações malucas, como a do dia 29 de agosto de 1951:

Plantei hoje violetas dobradas, mandei fazer cuecas para E. [um dos filhos]. Esta noite choveu e trovejou.

Em outras passagens, a gente vê cenas da cidade do interior em que ela viveu:

Dia 8 de setembro de 1951, sábado
Foram todos à missa. Eu não fui, pois tinha muito serviço de manhã. (...) Passamos hoje um grande desgosto: ao passar pela nossa rua a comitiva do Sr. Ademar de Barros, um dos automóveis matou o nosso cãozinho Gip. Foi uma choradeira, um desespero para todos. Passamos um dia de tristezas e contrariedades. Não fomos à procissão nem assistimos aos fogos.

Minha passagem favorita é a do dia 1 de outubro de 1959, uma quinta-feira:

Hoje, faltando dez minutos para as onze, nasceu Ana Maria, primeira filha da A.

É isso mesmo, o meu nascimento está registradinho lá. No dia seguinte, consta que ela e meu avô foram, com alguns parentes, me visitar no hospital (nasci numa cidade vizinha). O triste é que vem depois: no outro dia, meu avô morreu. Ele estava já adoentado, mas a morte foi meio repentina. E ela narra, certamente a posteriori, como foi o momento em que ele morreu. Ainda registra, no final da narrativa: Dia de Santa Terezinha do Menino Jesus (uma das suas santas preferidas), como se estivesse se sentindo traída pela santa a quem relata no diário ter feito muitas novenas nos anos anteriores.
Depois disso, ela quase não registra mais nada, apenas um ou outro episódio que rompe com o cotidiano, como o casamento de algum filho, o nascimento de algum neto. Nessas últimas páginas, o que mais tem é transcrição de poemas que ela lia e dos quais gostava, muitas vezes com alguma intromissão dela no texto. Ou poemas escritos por ela mesma, ao final dos quais escrevia "versos de minha lavra".
Todo mundo na família acha que a gente é meio parecida. Quem me dera! Mas acho que, se minha avó vivesse hoje, certamente seria mesmo blogueira. Então, pra terminar esse post, vou colocar uma foto dela sentadinha justamente naquela escrivaninha onde estavam escondidos os diários. E depois uma foto nossa, pra vocês verem se a gente se parece mesmo!




domingo, 19 de junho de 2011

Mais um rodízio? Ou agora é pra valer?

Já contei em posts anteriores aqui neste blog as histórias de uma vilazinha encravada nas encostas da Avenida 23 de maio, ao lado do Viaduto Paraíso. Pra quem quiser saber mais, este foi o último post e lá tem link para os anteriores.
Pois esses dias, veio a prefeitura mais uma vez visitar a vilazinha. Colocaram um caminhão na calçada da Avenida 23 de maio e começaram a remover o lixo. Carmem, do De uns tempos pra cá (blog onde eu publiquei como convidada o primeiro post desta série), passou por lá e tirou a primeira foto:



No dia seguinte, eu vi que o trabalho de remoção do lixo continuava e fotografei também:


Só que eles estavam também levando embora os moradores de lá. Havia alguns funcionários da prefeitura, com coletes do Serviço Social, levando embora as pessoas, enquanto os funcionários tiravam o lixo e destruíam as moradias.
O cenário final era assim, terra quase arrasada:


Mas quem prestar atenção na próxima foto, vai entender porque usei a palavra "quase":


Deu pra notar que já tem uma pessoa ali no fundo? Tem também alguns carrinhos de supermercado, pra quem tem a vista bem boa pra enxergar detalhes numa foto ruinzinha como essa, tirada pelo Ipod.
Ou seja, é bem provável que seja apenas mais um rodízio, e que novos moradores venham a se instalar ali. Vamos aguardar os próximos capítulos!

segunda-feira, 2 de maio de 2011

Há bens que vêm para o mal?

Eu fiquei muito feliz quando vi que as calçadas da Avenida Paulista finalmente foram refeitas de modo a facilitar a vida dos pedestres: cimento lisinho, sem buracos ou protuberâncias traiçoeiras. Tem até faixa guia para deficientes visuais, coisa linda!
Mas com a calçada lisinha, apareceram outras ameaças aos pedestres: ciclistas, patinadores e skatistas também querem desfrutar das alegrias da calçada. E aí, pobres pedestres, acabou o sossego. A gente tem de andar por ali o tempo todo desviando dos apressados seres que andam sobre rodas pela calçada.
Nos fins de semana, é ainda pior, com mais ciclistas, patinadores e skatistas.
Além disso, canteiros, escadas, muretas e até hidrantes viram desafios para as manobras arriscadas de seres sobre patins e skates. A calçada transforma-se em pista de acrobacias e os pedestres têm de passar pelos cantos pra não ficarem sujeitos a algum acidente.
Acho justo que exista espaço para todos na cidade: ciclovias para os ciclistas e pistas para patinadores e skatistas. E nesse cenário, a calçada deveria ser o espaço de pedestres. Na calçada, sobre rodas, apenas cadeirantes.
De que adiantam as faixas para guiar deficientes visuais, nesse cenário de disputa pelo espaço das calçadas?
Não demora pra algueém ser atropelado ali, tamanha é a confusão nos fins de semana.
E aí, prefeito, vai esperar alguém ser atropelado na calçada pra tomar alguma atitude? Calçamento de primeiro mundo requer normas de uso de primeiro mundo!

sábado, 12 de março de 2011

Um amor antigo e dois problemas novos

Eu adoro a Livraria Cultura do Conjunto Nacional por vários motivos. Sou cliente de lá desde muito antes de existir a atual livraria, que agora funciona onde era o Cine Astor.
O espaço era pequeno: é onde fica a atual seção de livros de arte. Sendo assim, não tinha café, não tinha banca de revista, não tinha teatro e quase não tinha cds e dvds. Também não existiam malucos com tacos de beisebol, e a gente rodava em torno daqueles balcões circulares, pra se inteirar dos lançamentos e levar uns livros novos pra casa. Nem o plano Mais Cultura existia, gente!
Daí, quando o Cine Astor fechou, fiquei triste, mas ao ver a nova Livraria Cultura ali naquele espaço, achei lindo e continuei frequentando o local, que eu adoro.
Mas vejam só: a mudança pode ter trazido muitas vantagens, mas trouxe também, para mim, dois problemas que até me tiram a vontade de circular por ali.
O primeiro deles é a quantidade de filantes de leitura de revistas que montam guarda ali no espaço da banca. Nos fins de semana é pior: quase é preciso pedir por favor pra conseguir pegar um exemplar de alguma revista, porque todo mundo fica ali em volta, lendo sem pagar. E depois, quando a gente consegue pegar a dita cuja, muitas vezes já vem bastante manuseada pelos frequentadores.
Tá, eu sou chata, mas isso já está avisado lá no cabeçalho do blog. Eu detesto ter de pedir licença a quem lê sem pagar pra poder pegar e pagar a minha revista sossegada!
O outro problema é o das mesas do café. É praticamente uma guerra conseguir um espaço ali. A gente tem de ficar na desagradável condição de tocaia de alguma mesa que a gente ache que vai vagar e praticamente se atirar em cima dela quando alguém se levanta. Hoje vivi uma situação esdrúxula: vi duas moças se levantando e fui até lá. Antes que eu me sentasse, ouvi de uma delas que elas resolveram levantar "pensando" naquele senhor que passara por ali à procura de uma mesa, então o lugar era dele - que já estava indo embora e voltou, diante desse "bom pensamento". E eu, que estava ali havia um tempão, fiquei a ver navios... Nunca tinha ouvido falar dessa modalidade de "levantar pensando" em alguém... Quer dizer que, se aquele cara não tivesse passado por ali, elas não se levantariam nunca?
Quando outra mesa vagou, vi uma funcionária do café dizer que estava reservando a mesma para uma senhora que estava comprando seu café. Como assim? Tem reserva de mesa e ninguém me contou?
Enfim, o café da livraria virou um exemplo enorme daquela frase que garante que o mundo é dos espertos e que é preciso saber levar vantagem em tudo.
Fiquei tão aborrecida que quase fui embora sem comprar meu livro e tomar meu café. Assim não dá, né?
Minhas sugestões, então.
Para o primeiro problema, basta deixar apenas um exemplar da revista à mostra e embalar os demais. Certamente isso reduziria o afluxo de filantes e garantiria aos compradores uma revista ainda não manuseada.
Quanto ao segundo problema, já passou da hora de o Viena, que administra o café, estabelecer uma senha por ordem de chegada, pra evitar aquele salve-se quem puder na hora de garantir uma mesa.
Fácil, né? Mas acho que infelizmente essas providências não serão tomadas tão cedo... Que pena!

terça-feira, 8 de março de 2011

Alguém duvida?

Eu nem dou muita bola pra esse negócio de Dia Internacional da Mulher, porque sempre acho que, se dizem que um dia é das mulheres, de um certo ponto de vista significa que os demais não são. Enfim, apesar disso, não dá pra ficar completamente alheia a isso, já que o bombardeio na mídia é grande.
Foi assim que me chegaram às mãos duas publicações relacionadas ao 8 de março e que eu gostaria de usar como ilustrativas da maneira como as mulheres são vistas nesse mundo patriarcal em que vivemos.
A primeira foi um e-mail do UOL, do qual sou assinante, homenageando as mulheres. Abaixo vai uma parte do tal e-mail, com os presentes que eles ofereciam às mulheres:

Confesso que não fui ao site das Americanas.com pra conferir quais eram os produtos com desconto, mas as três outras ofertas são todas relacionadas a cuidados com a saúde e a beleza. Ninguém ofereceu um desconto num restaurante, numa viagem a Paris, num curso de informática. Só cuidados com o corpo!
Depois disso, fui ao supermercado e encontrei lá esse folheto:

Só pela capa já dá pra sentir que o clima é o mesmo: as ofertas da semana da mulher estão relacionadas a "alimentação e saúde"! Pra comprovar, segue abaixo uma das páginas do folheto, com algumas das ofertas:


Queijo minas frescal? Quinua? Linhaça? É assim que querem que a gente comemore o Dia Internacional da Mulher? Cuidando da beleza? Eu confesso que trocaria de bom grado o meu desconto em quinua por um desconto nos maravilhosos vinhos vendidos ali...
Voltando então ao primeiro parágrafo deste post... Se houvesse um Dia Internacional do Homem, alguém poderia imaginar o tipo de promoção que estes dois estabelecimentos iriam fazer? Deixo para a imaginação dos leitores...
E ainda há quem diga que o sexismo é uma invenção das feministas!

sábado, 5 de março de 2011

Cinéfilos ranzinzas, a postos!


Bem escondidinho, ao lado da escada que leva ao restaurante, o pessoal responsável pelas salas de cinema do Reserva Cultural colocou um totem discreto. Chegando mais perto, a gente vê que se trata de uma maquininha encarregada de coletar informações dos frequentadores sobre o local. Tentei tirar uma foto, mas com celular, naquele lugar meio escuro, ficou péssima. Em todo o caso, coloco aqui pra ver se dá pra ter uma ideia da tela que aparece:


Chamo a atenção para as duas últimas questões. Como a parte inferior da foto está pior, transcrevo aqui:

4. Qual é a sua opinião em relação à venda de pipocas na Reserva Cultural?
a. Sou a favor b. Indiferente c. Sou contra
5. A venda de pipocas na Reserva Cultural influenciaria em suas vindas a Reserva Cultural?
a. Sim, aumentaria b. Não c. Sim, diminuiria

Por um lado, eu adorei a pesquisa, achei uma excelente demonstração de respeito ao cliente. Por outro, fiquei preocupada: e se os pipoqueiros ganharem? Vai para o brejo meu último refúgio quase à prova de pipoca no universo das salas de cinema de São Paulo!
Convoco, então, todo mundo que passar lá pela Paulista a deixar seu voto. E, se possível, a favor da manutenção daquele espaço livre da pipoca!

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

O tempo passa...

Semana que vem é aniversário de São Paulo e eu resolvi então fazer essa homenagem à cidade que eu adoro. Pra isso, vou lembrar uma historinha paulistana já antiga e atualizar as informações...
Há algum tempo, em novembro de 2009, contei no blog da Carmem (De uns tempos pra cá) a história de uma vila que funcionava nas encostas da Avenida 23 de maio, no Viaduto Paraíso. Depois, no meu blog, eu comentei o fato aqui e aqui. O último post era de fevereiro de 2010. Hoje, a coisa por lá anda assim:


E assim:


Ali onde tem aquela lona azul mora gente. Tem um outro pedaço aberto, por onde dá pra ver como estão as coisas por dentro:



Mas o mais impressionante de tudo é ver a cascata de lixo amontoado no barranco da Avenida 23 de maio:


Tá, eu sei que a foto não está boa, mas isso se deve à quantidade de lixo que é impossível de caber numa foto. Acho que dá. porém pra perceber que o barranco virou um lixão. Dia desses, tudo vai rolar sobre a calçada lá embaixo. Aí, quem sabe, alguém preste atenção nessa novelinha urbana trágica que acontece há mais de um ano sem que a prefeitura tome qualquer providência.
E só pra lembrar, tudo isso acontece a poucos metros da Avenida Paulista, como prova o Google Maps (pra ir direito pra página dele, é só clicar na foto):




Vou continuar observando o que acontece por ali, e espero ter uma boa notícia pra contar aqui na próxima oportunidade. Como já ficou provado, apenas demolir parcialmente as casas e expulsar os moradores não resolve nada. Acho que está mais do que na hora de a prefeitura parar de brincar de rodízio de moradores num espaço cada vez mais degradado. É preciso dar condições de moradia decentes pra quem vive lá em meio ao lixo e transformar aquela área num espaço minimamente urbanizado.
Quem sabe São Paulo ganha isso de presente no seu aniversário?

sábado, 8 de janeiro de 2011

Aboios de Djavan

Eu ainda estava na faculdade quando fui ver um show do Djavan pela primeira vez. Achei lindo. Muitos anos e doses de rabugice depois, peguei uma birra dele que só vendo.
Tudo começou quando ele teve a péssima idéia de escrever uma canção chamada "Se", lançada no disco "Coisa de acender", de 1992. Pra quem não tá ligando o nome à letra, basta citar os versos finais: " Mais fácil aprender japonês em braille / do que você decidir se dá ou não".
Na minha opinião, esses dois versos são de péssimo gosto, machistas pra valer. Estão entre as piores coisas da nossa MPB, que já conheceu momentos muito melhores, incluindo algumas canções do próprio Djavan.
Mas o pior ainda estava por vir: no final da década de 90, Djavan lançou um par de cds ao vivo, retomando sua obra em versão voz e violão.
Pronto, era o que faltava: os dois cds viraram sucesso instantâneo na categoria música ambiente. E pra piorar ainda mais as coisas, todo mundo que toca violão em barzinho parece que fez questão de aprender as músicas!
Resultado: basta a gente entrar em qualquer lugar que tenha MPB ao vivo pra ter uma overdose de Djavan, incluindo, claro, "Se" e seus versos finais pegajosos e de gosto duvidoso.
Enfim, as canções de Djavan acabaram virando munição infindável para aquela coisa desagradável que é a música compulsória...
Pronto, falei!

PS - O título é roubado da letra da canção "Pagã", de Chico César, lindamente cantada por Renato Braz.