segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Cecília e eu - parte 6

Aqueles meses de pesquisa no Rio passaram muito depressa, mas foram muito marcantes para mim. Rastreei Cecília pela cidade. Visitei muitas vezes a casa do Cosme Velho. Comprei livros, ganhei outros.
Mas quando falo em comprar livros, preciso falar de alguém que entrou na minha história com Cecília e a transformou completamente. Falo de um livreiro, Jaime Marcelino Gomes.
Seu Jaime, conhecido de muita gente que passou pela USP, era um português que tinha uma banca de livros usados na FFLCH. Ele era craque em encontrar edições raras. Além da banca na USP ele tinha uma livraria em casa, um paraíso para quem, como eu, vivia fuçando livros usados nos sebos.
Comprei muitos livros dele, que não tinha dúvidas em abrir seu caderninho e anotar a dívida que os clientes, como eu, iam pagando pouco a pouco, como desse. Vendia fiado sem medo.
Conhecendo minha paixão por Cecília, Seu Jaime sempre procurava edições raras dela pra mim. Numa fase em que eu morava no interior, recebia dele cartinhas muito simpáticas, anunciando que tinha conseguido esta ou aquela edição de Cecília que poderia me interessar. Fazia a lista dos livros, descrevia o estado dos volumes, colocava o preço e terminava sempre dizendo que não colocaria aqueles títulos à venda antes de ter a minha resposta. Não é uma maravilha que alguém assim tenha existido nesse mundo?
Graças a essa gentileza do saudoso Seu Jaime, minha coleção de primeiras edições de obras de Cecília cresceu muito, incluindo algumas edições autografadas pela escritora.
Cheguei até mesmo a conseguir uma primeira edição de Doze noturnos da Holanda & O Aeronauta com dedicatória de Cecília ao também poeta Tasso da Silveira:



Nesse exemplar encaminhado ao poeta, a autora fez questão de corrigir pessoalmente pequenos erros de impressão, como no caso da troca de posição dos primeiros versos do poema "Oito" dos Doze noturnos da Holanda:


Como eu sei que foi ela quem corrigiu? Se prestarmos atenção, veremos que o tom da tinta da caneta é o mesmo. Além disso, o desenho dos números 1 e 2, que se repetem na dedicatória, é idêntico.
Esse exemplar foi uma das maiores preciosidades que consegui comprar. Poder ver o cuidado de Cecília na correção de cada gralhinha da edição foi um prazer que só mesmo os loucos por livros podem entender. E os loucos por Cecília ainda mais!

6 comentários:

  1. Uma historia deliciosa.

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  2. Lindo! E o Seu Jaime...inesquecível, insubstituível...

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  3. Como louca das boas, posso entender :)
    Tão bom encontrar pessoas como essa!
    Abraços imaginautas.

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  4. Claudio (Curitiba)4 de novembro de 2013 19:48

    Que alegrias você deve ter sentido e que está repartindo, agora, generosamente.
    Bjs.

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