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Atacado ou varejo?

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Na madrugada de ontem, 12 de junho, 50 pessoas foram mortas por fuzilamento numa casa noturna em Orlando. Era uma boate gay, final da noite de temática latina, e quando todos tomavam a saideira, um homem entrou e começou a atirar. Só parou quando foi morto pela polícia, depois de matar 49 e ferir 53 dos presentes ali. Mais tarde, o pai do matador disse à polícia que tudo havia começado em abril, quando Omar Mateen teria ficado muito irritado ao ver dois homens se beijando num aeroporto. Embora o EI tenha aproveitado a chance para assumir a autoria do atentado, não há evidências até aqui de que o assassino tenha agido por qualquer outra razão além de sua própria homofobia. Em pleno domingo de dia dos namorados no Brasil, amanhecemos com essa notícia terrível. Muita gente se manifestou, com razão, lamentando o ocorrido. Revolta, tristeza, solidariedade foram os sentimentos mais constantes entre os meus amigos e conhecidos nas redes sociais (e eu me incluo). Mas eu gostaria de levar a dis...

Sobre limites e respeito

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Dia desses, conversando com uma amiga, falávamos de como é difícil reconhecer nossos próprios limites de aceitação da diferença. Ela, também homossexual e mais ou menos da minha idade, contava que teve algum contato com praticantes do poliamor e, diante deles, chegou à conclusão de que não era capaz de entender como era possível viver uma relação amorosa assim, com tantas pessoas ao mesmo tempo. Segundo ela, ao constatar esse seu bloqueio, lembrou-se de seu pai, que não era capaz de entender o amor entre pessoas do mesmo sexo, e se sentiu retrógrada como ele. Diante disso, eu (que, aliás, também tenho sentimentos semelhantes em relação ao poliamor) pensei que todos nós temos algum limite de compreensão da diferença, é praticamente inevitável. O que fazer então? Em primeiro lugar, acho que devemos assumir que temos, sim, um limite e que não necessariamente temos de lutar contra ele. O que não podemos, eu penso, é considerar tudo que está para além desse marco como ilegítimo, intolerável...

Pelo fim da cultura do estupro

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Eu não conheço nenhuma mulher que não tenha tido alguma experiência de abuso sexual. Eu mesma, que nunca correspondi aos padrões de beleza e daquilo que se considera feminilidade, já passei por alguns. Na época da hashtag #primeiroassedio, relatei que eu devia ter 5 anos de idade quando um homem adulto enfiou a mão na minha calcinha enquanto eu escolhia um doce pra comprar no armazém ao lado de casa. Eu acho que a gente acaba assimilando tanto essa rotina das investidas indesejadas dos homens que às vezes nem se dá conta do quanto elas são demonstrações de poder dos homens sobre os corpos das mulheres. A cultura do estupro está tão entranhada em nossa existência que nem nos damos conta dela. Para ilustrar, quero contar uma experiência que vivi quando morava em Campinas e estava fazendo faculdade, no final dos ano 70. Foi assim: eu ia visitar uma amiga, numa noite de chuva. Era cedo, acho que em torno das 8 da noite. Ela morava relativamente perto de casa, dava para ir a pé, mas havia u...

Ações práticas de feminismo

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Eu li um post do Buzzfeed que achei interessante:  10 coisas que os homens podem fazer para apoiar o feminismo . Recomendo a leitura pra todos, homens e mulheres. Pra mim, o texto me levou a pensar em algumas decisões que tomei já há algum tempo e que são parte da minha colaboração por um mundo mais justo para as mulheres. São as seguintes: Procuro sempre votar em mulheres. Claro que não deixo de lado o aspecto ideológico, mas, entre os candidatos que correspondem aos meus valores, escolho mulheres como destinatárias dos meus votos. Dou preferência para profissionais do sexo feminino, quando preciso de algum serviço. Quando preciso de médicos, por exemplo, primeiro busco por mulheres naquela especialidade. Ou dentistas. Ou fisioterapeutas. Ou qualquer outro serviço de que eu precise: primeiro mulheres. Remunero a minha faxineira com pagamento acima do valor que ela me pede. Enquanto trabalhava, sempre briguei por mais mulheres no ambiente de trabalho e tive mais orientandas...

Eles venceram - por enquanto

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Eu sempre tive dificuldade de me ver representada pela imensa maioria dos personagens de nossa classe política. Minha percepção é a de que vereadores, prefeitos, deputados estaduais, governadores, deputados federais, senadores e presidentes são invariavelmente aqueles homens de meia idade, com barrigas de prosperidade que se derramam sobre os cintos das calças de seus ternos. Carecas ou exibindo cabelos implantados (quase sempre tingidos), com todos os dentes brilhando na boca, esses homens me provocam uma sensação de aversão. Há algo de venal na maneira como olham, como falam, como se movem. Essa exibição de prosperidade e poder me parece obscena, ainda mais se consideramos o país em que vivemos. Lembrando de um antigo manual de redação do tempo da escola, fiz um exercício de livre associação com uma foto recente desses seres:     Por tudo isso ando um pouco triste. São eles que agora mandam de fato no nosso país. Estamos à mercê deles. "Eles venceram e o sinal está fechado p...

Central do Textão: tamos aí!

É oficial: Psiulândia faz parte da Central do Textão ! Tudo começou quando um grupo de blogueiros, capitaneados pela querida Tina Lopes (@TinaLopes, no Twitter), pensou em reacender o gosto pelos blogs. A ideia era uma reação à evanescência do textão de facebook, que acaba sempre desaparecendo misteriosamente na timeline quando a gente mais precisa dele. No blog, o texto sempre tem uma vida mais longa e dá pra gente retomar sempre que quiser. Depois de algum debate e de algumas providências, o site ficou pronto. São dezenas de blogueiros, com interesses diferentes, escrevendo sobre muita coisa. A Central faz uma compilação de tudo e apresenta de mão beijada para os leitores, facilitando o garimpo nos muitos e intrincados atalhos da web. Tô super orgulhosa de fazer parte da turma. Passa lá pra você ver que bacana! E volte sempre!

Ensaio final

Morreu hoje Fernando Faro, que foi, entre outras coisas, o criador do programa "Ensaio", em que entrevistava, de forma pouco ortodoxa, nomes da música popular brasileira. Essa adjetivação do formato como pouco ortodoxo se deve ao fato de que o entrevistador nunca era visto ou ouvido. Somente apareciam na tela da tv os artistas em questão. Quando assisti ao programa pela primeira vez, fiquei espantada com aqueles longos silêncios, ilustrados por detalhes em close do artista entrevistado: rosto, mãos, olhos. Eles pareciam concentrados, ouvindo uma pergunta, mas nós, espectadores, nunca a ouvíamos. Só tínhamos uma ideia da questão feita ao ouvir a resposta. Era intrigante - e delicioso, confesso. Hoje, com a partida do idealizador do "Ensaio", encontrei duas referências a depoimentos dele sobre sua opção por esse formato.  Numa delas, afirma: "O meu vocabulário de TV tem a pausa, o silêncio" (frase dita num especial sobre ele, na própria TV Cultura). Quanta o...