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Um copo espacial

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Aos pouco este blog, que nasceu para reclamações, está se tornando um espaço de recordações. Será o prenúncio de uma velhice menos rabugenta? Que seja, vamos a mais uma recordação! Em meados dos anos 70, eu estava cursando o que então se chamava colegial, correspondente ao ensino médio de hoje. Naquela época, estava muito na moda um programa de intercâmbio que trazia para o Brasil alunos americanos e levava alunos brasileiros para os Estados Unidos. Nunca entrei nessa briga para passar uma temporada fora, mas convivi por um ano com uma colega de classe americana, chamada Linda Gay. Já não me lembro em que série eu estava, mas suponho que tenha sido a segunda, o que nos leva ao ano de 1976.   (Linda me mandou essa foto muito depois de ter voltado para os Estados Unidos, em 1979)   Linda apareceu de repente em nossa sala de aula e fomos nos tornando amigas. Eu tinha estudado inglês desde criança e, por isso, falava com mais desenvoltura que meus colegas de classe. Como Linda ain...

Tempo tempo tempo

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  Eu me lembro quando foi a primeira vez, há mais ou menos dez anos. Eu conversava com uma ex-aluna, que havia se tornado amiga, e que sempre foi uma pessoa de muita compaixão com os animais. Em sua casa sempre havia muitos bichinhos de rua salvos por ela, principalmente cachorros. Estávamos na véspera do referendo sobre o desarmamento e eu, de modo ingênuo, achei que uma garota como aquela, ex-estudante de Letras numa universidade pública, homossexual e protetora de animais obviamente seria a favor do desarmamento. Me enganei redondamente. Ela se pôs a argumentar que todos tínhamos o direito de portar uma arma para defesa pessoal. Eu fiquei chocada, pois até ali eu meio que acreditava que havia uma espécie de conjunto de referências e valores comuns a todas as pessoas que eram minhas amigas. No começo achei que tivesse entendido mal e pedi que ela me explicasse melhor seu ponto de vista. Só piorou. Depois ainda tentei discutir um pouco, achando que poderia, com um pouco de argumen...

Casas

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Meu pai trabalhava no DER, Departamento de Estradas de Rodagem. Quando ele começou a trabalhar lá, eu era ainda muito pequena, pouco mais que um bebê. Por causa do trabalho dele, nossa família foi sempre meio nômade: a cada mudança de cargo, lá íamos nós para outra cidade. Nunca ficamos muito tempo em cada uma delas. Para mim, era sempre um trauma, pois quando eu já ia começando a me enturmar com os amigos e colegas da escola e a ficar conhecida pelos professores, já era hora de irmos embora para um lugar desconhecido e começar tudo de novo. Minha vida, assim, foi sempre cheia de casas diferentes de tempos em tempos. Nunca me senti pertencendo a um lugar. Às vezes é ruim, mas às vezes também é muito bom. Eu me lembro de que, quando decidi vir morar em Santos, muita gente me perguntou se eu tinha parentes que morassem aqui ou alguma outra espécie de vínculo com a cidade. Minha resposta padrão é sempre: "E precisa?" Eu estou acostumada a começar tudo de novo em outra cidade em ...