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Bibi e eu

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Acho que já contei em algum post que me orgulho de uma escolha que fiz aos 18 anos. Foi assim. Quando fui para São Paulo pela primeira vez (eu sempre vivi no interior), em 1977, com o time de basquete da minha escola, nossa técnica perguntou que passeio gostaríamos de fazer na cidade. Eu imediatamente disse que queria assistir à montagem de "Gota d'água", com Bibi Ferreira, que estava acontecendo no Teatro São Pedro Aquarius. Assim, numa das noites livres que tínhamos durante o campeonato, lá fomos nós ver a peça: a técnica, duas amigas do time e eu. Foi assim que pela primeira vez vi Bibi no palco, no papel de Joana: Eu nunca me esqueci daquelas cenas. Já tinha lido o livro e depois, no teatro, comprei uma fita cassete (sim, sou velha) com as canções da peça. Gastei a fita de tanto ouvir. Ainda hoje sei de cor certos trechos e, se quiser, sou capaz de fechar os olhos e ainda ouvir Bibi cantando "Basta um dia" naquele palco. Mais tarde, em meados dos anos 80, f...

Uma história de metrô

Sábado à noite, quase meia-noite, estação Consolação do metrô. Na plataforma, duas garotas jovens trocam carinhos enquanto esperam o trem, logo no ponto da primeira porta do vagão. Na altura da segunda porta, estávamos, Carmem e eu, com uma amiga, voltando de um show de Chico César. O trem chegou, embarcamos e aí começamos a ouvir a voz alta de um homem - que havia entrado pela terceira porta - dizendo que considerava aquilo uma falta de respeito, que podiam chamá-lo de homofóbico, pois ele não se importava. Falava pra todos ouvirem que algum dia ia fazer uma besteira, mesmo que fosse preso, porque aquilo era um absurdo. E ele olhava diretamente para as duas meninas que, de costas pra ele, continuavam abraçadas, namorando, sem se dar conta de que o motivo da raiva dele era o afeto entre elas. O homem estava alterado, talvez um pouco bêbado, e a mulher que estava com ele tentava acalmá-lo, mas não adiantava muito: o cara estava profundamente irritado. Nós três ficamos preocupadas com a ...

Um dia diferente em Berlim

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Num dos primeiros dias da nossa estada em Berlim, a querida Ceumar nos convidou para um programa diferente: uma cerimônia budista num parque da cidade. Topamos! Era uma boa ocasião para matarmos as saudades e conhecermos a Cerimônia das Lanternas, quando pequenas luminárias com mensagens aos mortos queridos são lançadas num lago. Olha a gente lá com a Ceumar. Atrás de nós, o lago com as primeiras lanternas já flutuando.     Mais tarde, mais gente lançou suas lanternas e nós ficamos por ali, fotografando e acompanhando tudo:      Achamos tudo tão bonito e poético! Foi aí que nos lembramos de alguns dos nossos queridos que já se foram, e decidimos fazer nossa lanterna também, com os nomes do Senshô (nome budista do nosso amigo Rodrigo) e da Vange.        Carmem lançou a lanterna às águas e eu fotografei. Ficam aí as fotos, com carinho, para Esper e Cilmara.           No final da cerimônia caiu uma tempestade daquel...

O melhor da viagem

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Desde o final da minha adolescência, tenho viajado muito de ônibus. Já enfrentei perrengues homéricos, como vocês podem imaginar. Nos últimos anos, depois da popularização dos smartphones, meu suplício tem sido aguentar os que ouvem música nesses aparelhos sem usar fones de ouvido. Já me queixei muito neste blog sobre o mau uso dos eletrônicos a bordo. Mas hoje quero falar de outra coisa. Quando eu viajo, procuro encarar o caminho como parte da aventura. Gosto de me sentar na janela, pra poder ir vendo a paisagem passar. Quando viajo durante o dia, especialmente, acho uma diversão ir olhando o mundo passando diante dos meus olhos. Mas de uns tempos para cá tenho observado o surgimento de um novo tipo de passageiro, cada dia mais comum. É aquela pessoa que, mal se senta, já baixa o encosto de sua poltrona ao máximo, fecha as cortinas da janela e coloca fones de ouvido. Parece que ela quer criar uma cápsula que a proteja de todo o contato com a vida ao redor dela naquele ônibus, inclusiv...

Rabugice, aqui me tens de regresso

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A tradição diz que o rei Luís XV da França teria dito a frase "Après moi, le déluge", que significa "Depois de mim, o dilúvio". Ainda que não seja verdadeira, a frase resume bem o modo de vida perdulário e extravagante da corte de seu tempo. Essa citação, que passou à história como um exemplo radical de desprezo pelos outros, pode se aplicar a inúmeras situações que acontecem hoje em dia, mas quero me fixar num exemplo muito pequeno: os banheiros públicos. Muitas vezes tenho a impressão, ao entrar num desses espaços, que Luís XV acabou de passar por ali, tal a situação em que o local se encontra. Sempre me lembro da frase e quase vejo os modernos luíses - ou melhor, as modernas luísas, já que uso os banheiros femininos - passando por ali e deixando seus pequenos dilúvios de urina. Para usar outro exemplo de frase de autoria duvidosa, não sei onde li, certa vez, que o diretor Alfred Hitchcock se orgulhava de sempre deixar o banheiro mais limpo depois de usá-lo. Apesa...

A falta que ela nos faz

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Hoje seria seu aniversário, sis. Trouxe alguns presentes pra você, sei que você iria adorar. Pra começar, você precisa saber que a sua namorada agora tem um olho ciborgue que vê tudo. Além disso, seu time de futebol acaba de conquistar o campeonato paulista. Tem muita foto e filme de macacos rolando por aí, um mais lindo que o outro. Eu continuo jogando Candy Crush, mas ainda não consegui superar seus scores. Outro dia vi uma foto de uma cabra se equilibrando de modo inacreditável num paredão vertical de montanha. Fernanda Montenegro andou beijando na boca a Natalia Thimberg na novela. Joana Fomm e a Selma Egrei também se beijaram, numa série de tv. E tem mais uma coisa legal: agora você é cavaleira, como a Joana D'Arc, com insígnia e tudo. Como você vê, tem um monte de coisa legal acontecendo, desde que você se foi. Tem um monte de coisa triste também, começando do fato de que você não está mais por aí pra nos ajudar a entender, com a sua lucidez e com sua generosidade, que tempos...

De Campinas a Bruxelas a Assis

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(este post é dedicado ao meu amigo do Twitter, @perfunctorio) Logo que eu comecei o mestrado na Unicamp, tinha reuniões periódicas com a minha orientadora, Maria Lúcia. Na sala dela havia um quadro que sempre me intrigou. Era este:   Um dia, não resisti e perguntei que quadro era aquele. Ela me disse que era de Paul Delvaux, um pintor belga, ligado ao surrealismo. Fiquei com aquele nome na minha cabeça. Quis o destino que, muitos anos depois, minha primeira viagem à Europa tivesse como destino Bruxelas. Eu iria participar de um congresso sobre Lusofonia, em 1998. Lá fui eu, e fui com aquele nome na cabeça. No Museu Real de Belas Artes, não sosseguei enquanto não encontrei o setor em que estavam os quadros desse pintor. E lá estava ele, "La voix publique", ao vivo! Numa outra viagem tirei uma foto com ele, que por azar não ficou boa. Mas aqui está: Comprei um postal com o quadro, um livro sobre o pintor e sosseguei. Anos mais tarde, já trabalhando na Unesp, em Assis, conheci u...