segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Adeus, ano velho.

Depois da longa série de postagens sobre Cecília e eu, o blog ficou um pouco parado. Era preciso retomar o fôlego. 
Agora vieram as festas de fim de ano, quando o nível de barulho no mundo aumenta muito.
Diante de tudo isso, Psiulândia se recolhe, mas com promessa de muitas novidades para 2014. Quem viver verá.
Até lá! 




segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Cecília e eu - parte 10 (final)

E assim chegamos ao final do percurso. Não ao final da minha relação com Cecília, claro, pois essa vai até o fim da minha vida, imagino.
Ao longo desses anos, desde aquele distante dia em que topei com os versos que mudaram a minha vida, Cecília tem sempre estado presente.
Nesses mais de 35 anos, escrevi muito sobre a obra da minha autora preferida. Foram muitos artigos, comunicações em congressos, ensaios, palestras. Não saberia fazer a conta exata, porque às vezes uma palestra acaba virando artigo, uma comunicação num congresso vira ensaio numa coletânea... Mas acho que dá pra dizer que meus escritos sobre Cecília andam pela casa das dezenas. Imagino que nem tudo se salva, mas tenho orgulho de alguns deles, porque acho que terão de fato contribuído para a compreensão da obra de Cecília.
Um dos meus maiores orgulhos é o de ter colaborado na edição da Poesia completa de Cecília Meireles que saiu no ano do centenário de nascimento da poetisa, 2001. É uma edição muito cuidada, em dois volumes, dentro de uma caixa, feita pela Nova Fronteira e organizada pelo professor Antônio Carlos Secchin:
No primeiro volume, entre os textos que fazem a introdução à obra, está uma seleção da crítica sobre Cecília feita por mim, a partir ainda daquele material que compõe o meu livro. Embora a edição esteja agora fora de circulação, fico feliz de ter feito parte dela.
Mas além de ter escrito sobre Cecília, nesses anos em que trabalhei na universidade, pude também orientar muitos alunos que tinham interesse em estudar a obra da escritora. Foram quase 20 trabalhos sobre Cecília que passaram por mim, nos níveis de Iniciação Científica, Mestrado e Doutorado. Alguns desses meus ex-orientandos estão hoje trabalhando em universidades também, o que me deixa muito feliz e com a esperança de que de alguma maneira a minha paixão por Cecília continue produzindo frutos através do trabalho deles.
E agora, que já estou bem perto de me aposentar, tomei a decisão de doar toda a minha coleção ceciliana para o mesmo Centro de Documentação Alexandre Eulalio da Unicamp, para o qual eu já tinha doado o material do mestrado. Livros, cartas, rascunhos, material audio-visual, enfim, tudo o que colecionei ao longo desses anos vai ficar reunido na "Coleção Cecília Meireles" no CEDAE.
Minhas preciosidades cecilianas foram embaladas em 7 caixas grandes e, no mês passado, foram levadas para Campinas. Aqui está o momento da assinatura do contrato de doação:



Não digo que não sofri um pouco com a partida, mas ao mesmo tempo sinto que fiz o que deveria fazer. A universidade pública me deu muitas coisas, e creio que é justo que eu devolva. Doei o que tinha de mais precioso. Além disso, não acho justo que uma coleção tão abrangente como a que consegui fique guardada só comigo. Quero que mais gente possa ter acesso a tudo o que acumulei nesses anos.
E pra falar a verdade, também tinha muito medo de morrer antes de poder dar um destino aos meus guardados e de repente ver minha coleção desmanchada e dispersa nos sebos por aí. Agora eu tenho a certeza de que todas as minhas relíquias vão ficar sempre juntas! E disponíveis pra quem se interessar por elas!
Em casa, guardei poucas coisas, que mais tarde deverão ir para o CEDAE também. Uma delas, a edição da Poesia completa de que falei há pouco. Além disso, guardei algumas edições da Obra poética da Editora Aguilar, entre elas, aquela mesma de 1967, idêntica àquela da minha escola, onde li pela primeira vez a poesia de Cecília:



quinta-feira, 14 de novembro de 2013

Cecília e eu - parte 9

A história já se estendeu muito, mas eu prometo que está acabando... Mas antes do final , queria contar algumas histórias sobre um outro aspecto da minha relação com Cecília: as viagens.
Para quem não sabe, a escritora era uma viajante das boas.
Fez sua primeira viagem internacional em 1934, indo pra Portugal com o primeiro marido, que era o artista plástico português Fernando Correia Dias. Foram de navio, numa viagem que, entre ida, estadia e volta, levou 3 meses.
Foi nessa ocasião que aconteceu também o célebre desencontro entre Cecília e Fernando Pessoa. Foi assim: marcaram um encontro no Café A Brasileira, no Chiado, e Pessoa não apareceu. Quando Cecília voltou ao hotel, encontrou um bilhete dele dizendo que o horóscopo dizia que não era um bom dia para se encontrarem. E assim ele perdeu a única chance de conhecer Cecília pessoalmente... Costumo dizer que, de tão arrependido, está até hoje lá, sentadinho, esperando que ela volte!
Quando estive nesse café, fiz questão de tirar uma foto dando uma bronca nele. Onde já se viu faltar a um compromisso com Cecília Meireles???
Mas foi depois do início da década de 40 que Cecília viajou com mais frequência. Foram muitos países e, por decorrência, muitos novos escritos sobre essas experiências. Há 3 volumes de Crônicas de viagem já publicados, mas, além, disso, Cecília publicou também os Poemas escritos na Índia, os Doze noturnos da Holanda, os Poemas italianos... Enfim, viajar e escrever sobre as viagens se tornou uma constante na vida de Cecília.
Eu acho que também nisso sou muito parecida com ela: gosto de viajar. E, sempre que posso, incluo nos meus roteiros algum local visitado por Cecília, pra poder ver ao vivo aqueles lugares sobre os quais ela escreveu.
Acho que o primeiro desses lugares foi Ouro Preto. Desde minhas primeiras leituras cecilianas, ficou claro para mim que essa cidade era uma obsessão para ela. E acabou se tornando para mim também, tantas foram as vezes em que lá estive, sozinha ou acompanhada. Mas desde a primeira vez, levando comigo um exemplar do Romanceiro da Inconfidência, para poder ler os poemas no cenário que os inspirou.
Fui mesmo, algumas vezes, acompanhando alunos em excursão, como uma espécie de guia literária da cidade... Nessa mesma condição, também lá estive acompanhando a escritora portuguesa Maria Teresa Horta, que se tornou minha amiga. Duas fotos desses momentos:
 na primeira estamos na casa de Gonzaga e eu leio trechos do Romanceiro para Teresa Horta, seu marido Luís e Marlise, minha amiga. Na segunda, dou algumas informações históricas para um grupo de alunos:


Mas pude visitar também alguns outros lugares que Cecília amava. Na primeira vez que estive em Amsterdã, lembro-me de me sentar sozinha à beira de um canal e de ler  em voz alta o poema "Doze", do livro Doze noturnos da Holanda, mesmo correndo o risco de ser tomada como louca...
Fui também aos Açores, à Ilha de São Miguel, onde nasceu a avó de Cecília, dona Jacinta Garcia Benevides, que foi quem a criou (o pai de Cecília morreu antes que ela nascesse e sua mãe morreu quando a futura escritora tinha apenas 3 anos).
Cecília amava os Açores e se emocionou muito quando lá esteve. Há até mesmo uma avenida com seu nome, em Ponta Delgada, na Ilha de São Miguel:



Estive também em Penajoia, aldeia próxima da cidade de Peso da Régua, no norte de Portugal, onde nasceu o primeiro marido de Cecília. É um lugar encantador, no meio dos vinhedos, às margens do Rio Douro,  retratado por Cecília no poema "Madrugada na aldeia": "Madrugada na aldeia nevosa / com as glicínias escorrendo orvalho".
Enfim, em minhas viagens muitas vezes acontecem esses momentos em que mais parece que eu estou numa peregrinação ceciliana pelo mundo... De um certo modo, Cecília também define meus roteiros de viagem...

segunda-feira, 11 de novembro de 2013

Cecília e eu - parte 8

Ainda durante o doutorado, prestei o concurso para trabalhar na Unesp, em Assis, e passei. Lá começava uma nova fase na minha vida.
Logo nos primeiros anos, comecei a orientar trabalhos de Iniciação Científica. E quem adivinha o tema das pesquisas? Bom, na verdade eram temas variados, mas sempre havia alguns alunos pesquisando Cecília sob minha orientação.
Uma das primeiras ideias que tive foi reativar o levantamento de textos sobre Cecília, como numa continuidade daquele trabalho do mestrado. Durante muitos anos, tive alunos coletando o que se escrevia sobre ela: Jane, Luciana, Jacicarla, Vinicius, Fabiano.
Ao final das etapas das pesquisas, os documentos eram também enviados para Campinas. Os resultados foram gradualmente sendo colocados numa página na internet, muito simples, feita com a boa vontade dos alunos. Pode ser vista aqui.
Mais tarde, depois de ter obtido o doutorado, comecei a orientar também trabalhos de mestrado e doutorado, principalmente sobre Cecília.
E assim, de trabalho em trabalho, chegamos a um ano muito significativo para os que amam Cecília: 2001, o ano do centenário de nascimento da escritora.
Nessa altura, eu havia perdido um pouco o contato com Maria Mathilde e sua filha Fernanda. Foram as atividades de comemoração do centenário que nos reaproximaram.
Participei de dois congressos, um em São Paulo, na USP, organizado pela Leila Gouvêa, e outro em Porto Alegre, na UFRGS, onde trabalhava a minha xará ceciliana, Ana Maria Lisboa de Mello, que eu tinha conhecido ainda nos tempos do mestrado. Aliás, cabe um pequeno flashback: Ana e eu nos conhecemos por carta, já que nossas orientadoras eram amigas e sabiam que ambas éramos cecilianas. Foram mais de dez anos de correspondência, antes de nos conhecermos pessoalmente.
Nesse congresso de São Paulo finalmente pude rever Maria Mathilde. Não sabia era que aquela seria a última vez que nos veríamos. Ela morreria em 2007, sem que tivéssemos outra oportunidade de voltar a conversar. Naquele dia, em 2001, tivemos um encontro muito feliz, como se pode ver pelas nossas caras alegres:


Foi também nessa ocasião que me tornei mais próxima de Fernanda, uma das filhas de Mathilde, até hoje uma amiga querida.
Naquele ano também pude ver pela primeira vez o primeiro livro de Cecília, Espectros, publicado em 1919 e renegado por ela. Foi só nesse ano que encontraram um exemplar e fizeram finalmente uma reedição!
E por fim, foi também em 2001 que publiquei meu livro sobre Cecília Meireles, em que reunia o levantamento da fortuna crítica que tinha feito no mestrado, acrescentando a ele o complemento que minhas orientandas Jane e Luciana tinham feito:


É um livro difícil, que interessa só a quem pesquisa a obra de Cecília, mas fico feliz por ter podido publicá-lo. Foi o fechamento de mais um ciclo. E assim terminou um ano de festas para os cecilianos!

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Cecília e eu - parte 7

Já estou na sétima postagem e ainda nem contei como foi o final do meu mestrado.
Pois bem,  depois de ter feito temporadas de pesquisa em São Paulo e Rio de Janeiro, já tinha comigo o material de que precisava para terminar a dissertação. E aí começou um longo período de crises na hora de escrever... Mas finalmente chegou o fim do prazo e a dissertação ficou pronta.
Um dos membros da banca foi o mesmo Alexandre Eulalio, de quem já falei na parte 5. Ele já estava doente, naquela altura, e infelizmente morreu poucos meses depois. Em memória dele, a Unicamp criou o Centro de Documentação Alexandre Eulalio, inclusive para receber os documentos de seu espólio que foram doados pela família.
Durante os anos finais do mestrado, eu já tinha me mudado para São Paulo e começado a dar aulas em faculdades particulares. Depois da defesa, continuava apaixonada por Cecília mas não tinha vontade de fazer doutorado, até que um dia achei que era hora de começar de novo.
Consegui ser aprovada para o doutorado na USP, em literatura portuguesa, já que essa era a discplina mais frequente entre as que eu lecionava. Mas como eu iria incluir Cecília Meireles nisso?
Acabei optando por fazer um projeto de comparar um livro de Cecília (o Romanceiro da Inconfidência) e um de Fernando Pessoa (Mensagem). Mas preciso confessar: ainda gosto mais da minha dissertação de mestrado do que de minha tese de doutorado.
Durante os anos em que morei em São Paulo, trabalhando e estudando, conheci pessoas interessadas na obra de Cecília Meireles. Falava sobre minha pesquisa do mestrado e muitas vezes recebi pessoas em casa para pesquisar o material bibliográfico que eu tinha coletado. Era cada vez mais difícil manter aquilo tudo em ordem e bem conservado.
Foi então que tive a ideia de doar o conjunto para o Centro de Documentação Alexandre Eulalio, para resolver tanto a questão do acesso aos documentos quanto a de sua conservação adequada. E lá foram meus papeis para Campinas. Algumas pessoas acharam que eu não deveria ter feito isso, pois perderia a exclusividade desse material, mas eu fiquei muito feliz em doar. De certa maneira, sentia que retribuía um pouco à Unicamp o que ela me deu. Eu não iria precisar daqueles documentos para fazer a tese de doutorado. E, se precisasse, eles lá estariam, disponíveis para mim e para quem quisesse.
Além de tudo isso, eu sentia que era também uma forma de homenagear Alexandre Eulalio, que tinha sido tão importante no meu percurso acadêmico.
Para terminar esse capítulo, vale ainda uma lembrança: hoje, dia 7 de novembro, Cecília Meireles faria 112 anos. E no dia 9, serão 49 anos sem ela.

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Cecília e eu - parte 6

Aqueles meses de pesquisa no Rio passaram muito depressa, mas foram muito marcantes para mim. Rastreei Cecília pela cidade. Visitei muitas vezes a casa do Cosme Velho. Comprei livros, ganhei outros.
Mas quando falo em comprar livros, preciso falar de alguém que entrou na minha história com Cecília e a transformou completamente. Falo de um livreiro, Jaime Marcelino Gomes.
Seu Jaime, conhecido de muita gente que passou pela USP, era um português que tinha uma banca de livros usados na FFLCH. Ele era craque em encontrar edições raras. Além da banca na USP ele tinha uma livraria em casa, um paraíso para quem, como eu, vivia fuçando livros usados nos sebos.
Comprei muitos livros dele, que não tinha dúvidas em abrir seu caderninho e anotar a dívida que os clientes, como eu, iam pagando pouco a pouco, como desse. Vendia fiado sem medo.
Conhecendo minha paixão por Cecília, Seu Jaime sempre procurava edições raras dela pra mim. Numa fase em que eu morava no interior, recebia dele cartinhas muito simpáticas, anunciando que tinha conseguido esta ou aquela edição de Cecília que poderia me interessar. Fazia a lista dos livros, descrevia o estado dos volumes, colocava o preço e terminava sempre dizendo que não colocaria aqueles títulos à venda antes de ter a minha resposta. Não é uma maravilha que alguém assim tenha existido nesse mundo?
Graças a essa gentileza do saudoso Seu Jaime, minha coleção de primeiras edições de obras de Cecília cresceu muito, incluindo algumas edições autografadas pela escritora.
Cheguei até mesmo a conseguir uma primeira edição de Doze noturnos da Holanda & O Aeronauta com dedicatória de Cecília ao também poeta Tasso da Silveira:



Nesse exemplar encaminhado ao poeta, a autora fez questão de corrigir pessoalmente pequenos erros de impressão, como no caso da troca de posição dos primeiros versos do poema "Oito" dos Doze noturnos da Holanda:


Como eu sei que foi ela quem corrigiu? Se prestarmos atenção, veremos que o tom da tinta da caneta é o mesmo. Além disso, o desenho dos números 1 e 2, que se repetem na dedicatória, é idêntico.
Esse exemplar foi uma das maiores preciosidades que consegui comprar. Poder ver o cuidado de Cecília na correção de cada gralhinha da edição foi um prazer que só mesmo os loucos por livros podem entender. E os loucos por Cecília ainda mais!

sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Cecília e eu - parte 5

Vamos apressar um pouco o passo e resumir os 4 anos que passei no curso de Letras: foi um período interessantíssimo da minha vida, mas os poemas de Cecília Meireles apareceram pouco nas aulas de literatura... Ou, pelo menos, não apareceram com a frequência que eu gostaria de vê-los.
Em todo o caso, morando em Campinas ficou mais fácil para ampliar minha coleção de livros. Aos poucos, fui comprando o que encontrava nas livrarias e sebos.
Com a aproximação da formatura, comecei a planejar o ingresso na pós-graduação, para poder dedicar-me mais ainda ao estudo da minha escritora. E assim foi: em 1982 eu estava matriculada no mestrado com a firme determinação de estudar a obra de Cecília.
Para definir melhor meu projeto de pesquisa, comecei a buscar mais bibliografia sobre a autora. Assim, cheguei ao Centro de Ciências, Letras e Artes de Campinas, onde encontrei um arquivo de recortes de jornal sobre Cecília. Um tesouro! Depois de fazer cópias de tudo, minha orientadora sugeriu que eu aproveitasse o material fazendo minha dissertação sobre a bibliografia existente acerca de Cecília Meireles.
O projeto ficou pronto, consegui uma bolsa e comecei a buscar material sobre Cecília de maneira mais sistematizada.
Entre os meus professores das disciplinas do mestrado, tive a sorte de contar com Alexandre Eulalio. Ele tinha sido amigo de Cecília e, além de me contar muitas histórias, teve a generosidade de me emprestar os discos do selo Festa em que a poetisa declamava alguns de seus poemas. Pela primeira vez pude ouvir a voz de Cecília! Alexandre também me emprestou suas pastas de recortes de jornais, onde encontrei muitos outros textos para minha pesquisa sobre a autora.
No início do ano seguinte, 1983, passei 6 meses pesquisando em São Paulo, frequentando bibliotecas, arquivos, jornais e até mesmo a casa de algumas pessoas que tinham sido amigas de Cecília Meireles, como Múcio Porfírio Ferreira, Ruy Affonso Machado e Lúcia Machado de Almeida. Foi delicioso conversar com eles e ouvir as histórias que contavam sobre Cecília. Alguns, como Múcio, acabaram por se tornar meus amigos também.
Depois dessa etapa em São Paulo, voltei ao Rio de Janeiro para pesquisar também por lá. Da mesma forma, frequentei bibliotecas, arquivos e as casas de amigos de Cecília.
Tive algumas surpresas inesquecíveis. Uma delas foi a amável recepção que tive do professor J. Galante de Sousa no Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Casa de Ruy Barbosa. Ao saber que tinha sido aluna de Alexandre Eulalio, franqueou-me o acesso a cartas de Cecília, enviadas para sua amiga Isabel do Prado. A preciosa coleção estava ainda em processo de catalogação, já que tinha acabado de ser doada pela destinatária das cartas.
Pude também ser recebida pelo professor Afrânio Coutinho em sua Oficina Literária, que então ficava na Rua Paul Redfern, na divisa entre Ipanema e Leblon. Em meio aos livros, ele me falou de Cecília e me possibilitou o acesso a textos sobre a escritora que ele havia recolhido.
Estive com muitos amigos de Cecília, mas duas pessoas foram especialmente atenciosas comigo: a ex-embaixadora Beata Vettori e a jornalista e tradutora Isabel do Prado - sim, ela mesma, a doadora e destinatária das cartas de Cecília que eu havia encontrado na Casa de Ruy Barbosa. Era uma mulher muito interessante, com muitas histórias para contar.
Mas, acima de tudo, esses meses passados no Rio de Janeiro foram de reencontro com Maria Mathilde e a casa do Cosme Velho. Ali voltei muitas vezes, sozinha ou com minha amiga Angela, que acabou se tornando também ela uma amiga de Maria Mathilde.
A cada visita, ouvia novas histórias, ganhava novos livros, conhecia mais algum recanto daquela casa ainda tão cheia de Cecília. E, acima de tudo, solidificava minha amizade com Mathilde. E também com sua filha, Fernanda, ainda hoje minha amiga querida.

terça-feira, 29 de outubro de 2013

Cecília e eu - parte 4

Eu sei que talvez esteja me demorando demais na descrição de minhas andanças pela casado Cosme Velho com Maria Mathilde, mas queria mesmo contar com detalhes, pois foi uma experiência marcante na minha história com Cecília.
Para não cansar quem até agora não desistiu de acompanhar a série de posts, vou tentar resumir um pouco...
Digo apenas que percorri a casa toda com minha anfitriã. E pude conhecer até mesmo os azulejos onde Cecília um dia tirou essa foto:


Mas o mais emocionante mesmo foi chegar ao segundo andar, onde se encontrava a biblioteca de Cecília, ver seus livros ali nas estantes e poder até mesmo tocar a mesa em que ela trabalhou durante tanto tempo:


Ao que parecia, Maria Mathilde procurava manter o escritório bastante preservado, de modo que parecia que Cecília poderia voltar a qualquer momento e retomar seus escritos.
Como disse, foi uma experiência marcante na minha vida. Saí de lá levando muitas edições de livros de Cecília, recebidas como presente de Mathilde. Minha coleção de livros da escritora começava a crescer e a contar até mesmo com alguns exemplares raros.
Antes de voltar para casa, ainda pude me encontrar com a filha mais velha de Cecília, Maria Elvira, que morava num apartamento em Copacabana. Dela, ganhei a preciosa edição de 1977 da Obra poética da Aguilar.
Fui ainda ao cemitério de São João Batista, fazer uma visita ao túmulo de Cecília.
Voltei para casa animada para começar meu curso de Letras e poder me dedicar a estudar ainda mais a obra da minha autora preferida.

domingo, 27 de outubro de 2013

Cecília e eu - parte 3

Eu tinha, na postagem anterior, contado como foi subir os degraus do jardim daquela casa mágica no Cosme Velho com palavras de Cecília ecoando na minha cabeça. Pois bem, assim que chegamos à varanda da casa, Maria Mathilde começou uma espécie de jogo comigo, que se tornou um hábito entre nós. De repente ela apontava para algum objeto e me perguntava se eu o reconhecia. Eram sempre aqueles que de alguma maneira tinham sido referenciados nos textos de Cecília.
Ela me testava, eu sabia. Mas eu adorava , porque assim ia conhecendo ao vivo o universo em que viveu Cecília.
Um dos primeiros objetos escolhidos para o teste foi um espelho oval, cujo desenho foi usado por Cecília num poema-errata, em que pedia desculpas por um deslize ortográfico.
Depois, mostrou-me a estátua da primavera que aparece no poema "Leilão de jardim", do livro Ou isto ou aquilo: "Quem me compra este caracol? / Quem me compra um raio de sol? / Um lagarto entre o muro e a hera, / uma estátua da Primavera?"
Eu tentei fotografá-la com uma máquina bem precária que tinha então. Com um scanner e alguma edição de imagem, consegui salvar isto:


Numa das salas da casa, via-se a porta de vidro com círculos de metal que serve de fundo para uma conhecida foto de Cecília:


Tudo ali me deslumbrava. Mathilde, com toda a paciência, me mostrava a casa, me contava histórias e me dava muitos livros de presente.
Na sala principal da casa estava o quadro de Cecília pintado por Árpád Szenes, o mesmo artista que desenhou o célebre perfil de Cecília que aparece em muitas edições de seus livros:


Mas eu confesso que a minha comoção maior foi ver pessoalmente uma terrina de sopa que Cecília havia herdado de sua avó açoriana, Jacinta Garcia Benevides. A terrina é referida no livro Olhinhos de gato, em que Cecília conta de forma poética suas memórias de infância. Mais tarde, em 1962, num poema chamado "Terrina", a corça que ilustra a estampa da peça se transforma numa  interlocutora com quem a poetisa relembra o passado. Era um objeto muito bonito e merecia uma foto profissional. Infelizmente, só me restou essa tentativa primária:


Mesmo diante dessa foto precária, dá pra imaginar a emoção que senti diante dessa terrina? Eu mal podia acreditar que, saindo lá daquela cidade longínqua do interior de São Paulo, tinha ido parar no cenário em que meus poemas preferidos tinham sido escritos!
Mas a casa era enorme, e nós estávamos apenas no andar térreo! Ainda havia muito para ser visto!

quinta-feira, 24 de outubro de 2013

Cecília e eu - parte 2

Pronto, vamos continuar mais um pouco a história...
Estávamos em 1977, não é?
Naquele ano, eu prestei vestibular para aquela que seria a primeira turma de Letras da Unicamp.
Mas antes de sair o resultado, fui visitar minha prima que estava morando no Rio de Janeiro. Lá, eu tinha um plano secreto: tentar encontrar as filhas de Cecília.
Eu tinha escrito para algumas editoras, tentando contato com a família e também com alguns estudiosos da obra de Cecília. Eu era atrevida e assim já tinha descoberto que a segunda filha da poetisa, Maria Mathilde, morava então no mesmo endereço do Cosme Velho onde a minha escritora querida tinha passado as últimas décadas de sua vida.
Os mais novos não devem saber, mas os mais velhos certamente se lembrarão de que nessa época, eram raros os telefones - fixos, claro - que funcionavam, no Rio. Tentei ligar, mas não consegui.
Assim - eu era atrevida, lembram? - peguei um ônibus e me abalei para o Cosme Velho, sem ter a menor ideia de onde ficava a Rua Smith de Vasconcelos. Sim, ainda não existia o Google Maps. Nem o GPS. Nem a internet. Nem os computadores pessoais. Enfim, praticamente era a idade da pedra.
Quando o ônibus já se preparava para estacionar no ponto final, eu, que vinha triste, sem encontrar a rua, de repente enxerguei a placa, num muro antigo, onde estavam incrustadas as raízes de uma árvore muito grande e muito velha que se equilibrava no início da encosta do Morro de Dona Marta. Era ali, bem ao lado da estação do trenzinho que sobe ao Corcovado! Desci do ônibus com o coração aos pulos e, ao chegar diante da casa, sem vacilar toquei a campainha. Ah, como é bom ser jovem e inconsequente! Hoje não teria essa coragem nem essa cara de pau.
Para meu assombro, vi então descer a longa escadaria uma senhora simpática, de olhos claros, que guardava em sua aparência muita semelhança com as fotos de Cecília que eu conhecia. Aquele olhar não deixava dúvidas: era a própria Maria Mathilde quem atendia o chamado da campainha tocada por aquela menina petulante.
Identifiquei-me e disse que amava a poesia de Cecília e que gostaria de conhecer a casa. Ela, sem vacilar, me convidou a entrar. Eu mal podia acreditar que estava entrando ali!
Já na longa escadaria que percorria o jardim e levava ao casarão lá no alto, vieram à minha memória os trechos iniciais daquela conhecida crônica do livro Ilusões do mundo, chamada "Um cão, apenas": "Subidos, de ânimo leve e descansado passo, os quarenta degraus do jardim - plantas em flor, de cada lado; borboletas incertas; salpicos de luz no granito - , eis-me no patamar."
E lá estava eu, vivendo pessoalmente o texto da crônica, chegando ao patamar, acompanhada de Maria Mathilde e prestes a entrar naquela casa mágica, onde eu voltaria muitas vezes nos anos seguintes, e que ficou para sempre na minha memória, sem que eu jamais pudesse ter tido a oportunidade de fotografar decentemente o que vi por lá. Então vou contando aqui, tentando substituir com mil palavras cada foto que não tirei. Será que consigo?

terça-feira, 22 de outubro de 2013

Cecília e eu - parte 1

Decidi começar a contar aqui a longa história que me liga à obra de Cecília Meireles e - por que não? - até mesmo à pessoa da poetisa, embora eu nunca a tenha conhecido pessoalmente. Terei de escrever vários posts para isso, pois tudo começou há 37 anos. E não acabou ainda...
Em 1976, eu era uma adolescente típica, cheia de crises, sem ainda ter sequer escolhido a carreira que gostaria de seguir, mesmo estando já no penúltimo ano daquilo que chamávamos de colegial.
Gostava de música, gostava de literatura e foi assim que um dia, tendo ouvido falar que a letra de "Os inconfidentes", de Chico Buarque, fora tirada de um poema de Cecília Meireles, fui à biblioteca da escola para encontrar a  fonte.
Conhecia Cecília dos poemas infantis, das crônicas que apareciam nos livros didáticos. Mas nem sequer sabia que ela tinha um livro chamado Romanceiro da Inconfidência. Por isso, pedi à bibliotecária a Obra poética de Cecília Meireles, pensando que não seria difícil encontrar a origem da canção de Chico Buarque.
Lembro-me bem: era a edição de 1967 da Editora Aguilar, volume que tinha sido feito num formato um pouco menor que o habitual. Era quase um livro de bolso.
Por ser uma edição mais cara, não podia ser emprestado. Eu teria de ler ali na biblioteca. E assim comecei a folhear o volume, lendo rapidamente os poemas. Reencontrei "Retrato", que conhecia mas não me lembrava que era de sua autoria: "Eu não tinha este rosto de hoje / assim calmo, assim triste, assim magro".
E segui lendo, até que um poema chamado "A última cantiga" praticamente me atropelou, quando cheguei na penúltima estrofe, que dizia "Ainda que sendo tarde e em vão, / perguntarei por que motivo / tudo quanto eu quis de mais vivo / tinha por cima escrito: 'Não'." Pronto, tive a exata sensação de que minha vida, até ali, tinha sido resumida em quatro versos!
De repente, tudo o que eu queria ler era a poesia de Cecília. E o livro não podia sair da biblioteca da escola! Passei todos os intervalos e aulas vagas, no resto daquele ano, ali na biblioteca, lendo e copiando poemas, até que o ano acabou e as férias chegaram, fechando a biblioteca.
Não havia livrarias na cidade, mas descobri que a biblioteca municipal tinha livros de e sobre Cecília, que podiam inclusive ser retirados! Foi a minha salvação. Passei as férias na biblioteca e em casa, lendo e copiando poemas num caderno.
Foi nessa altura que decidi que queria fazer Letras, para poder estudar mais aquela autora e aquela obra. Tinha a sensação de ter encontrado alguém que havia escrito tudo aquilo que eu um dia gostaria de ter dito.
No ano seguinte, enquanto seguia lendo Cecília e tentando comprar livros dela, inscrevi-me no vestibular para cursar Letras na Unicamp.
Mas o final daquele ano de 1977 me reservaria ainda algumas surpresas.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

Minha cidade natal

Quando eu era adolescente, fiz certa vez um poema-piada com a cidade onde nasci, chamada Socorro: "Só corro / da minha cidade natal".
A piada serviu mais para provocar meu pai que, como eu, tinha nascido ali. Mas, ao contrário dele, eu praticamente não morei lá, já que meus pais se mudaram da cidade quando eu ainda era bebê.
Quando meu pai se aposentou, minha mãe e ele foram moram lá, de novo. Minha mãe, hoje viúva, continua na mesma casa onde meu pai nasceu, uma daquelas casas antigas, com as janelas dos quartos praticamente na calçada.
Quando vou visitar minha mãe, acho que fica mais claro porque criei esta Psiulândia: acho que não há lugar mais barulhento na face da terra do que Socorro.
Mas devo confessar que Socorro se supera a cada visita. Para provar, conto algumas ocorrências deste último fim de semana.
Cheguei lá na hora do almoço, no sábado. Logo no início da tarde, minha mãe e eu fomos surpreendidas com a passagem de um gigantesco trio elétrico na frente de casa. O som fazia tremer as paredes. Em casa, ninguém conseguia se fazer ouvir. Naquela rua estreita, parecia que o caminhão passava dentro de casa. O som era música gospel.
Atrás dele, vinham as pessoas:


Sim, era a Sétima Marcha para Jesus! Depois que o trio e as pessoas passaram, as coisas se acalmaram um pouco. Só continuaram os inevitáveis carros com som alto que passam regularmente pela rua.
Aliás, mais tarde fui dar uma volta a pé pela cidade e observei: acho que passaram uns 5 carros enfileirados com som alto, daqueles alto-falantes com subwoofer poderoso. Parece que fazer barulho com o carro é um esporte municipal.
No final do dia, uma amiga da minha mãe passou por lá e comentou: hoje tem música na praça, estão montando um palco. Detalhe: a casa da minha mãe fica a menos de cem metros de distância da praça da matriz.
Dito e feito: às 9 da noite começou o show, em volume audível na casa toda. Só acabou quando já era quase uma da manhã. Dormir pra quê, né?
Ah, mas o pior ainda estava por vir! Como eu disse, Socorro se supera a cada visita! No domingo, eu descobri que agora a nova moda por lá, em lugar de propaganda sonora em carros, é a propaganda sonora feita por aviões! Sim, acreditem: um teco-teco fica sobrevoando a cidade com um alto-falante anunciando as ofertas das lojas! É inacreditável! O barulho vem de todos os lados, até do alto! Será que é por isso que a cidade se chama Socorro???
Só pra concluir, ainda pra provar como essa minha cidade sempre me surpreende, descobri que há uma nova marca local de cerveja. O nome? Vejam com seus próprios olhos, porque eu tenho pudor de escrever:



É ou não é pra me ufanar da terra em que nasci?

sábado, 7 de setembro de 2013

Carta para a terra pura

Querido Rodrigo, querido Senshô, hoje se completam os 49 dias desde que você se foi. Alguma razão devem ter os budistas (como você) para entender que esse é o prazo de que a gente precisa pra entender que as coisas nunca mais serão como foram.
A saudade da sua presença já achou seu lugar dentro da gente e já se instalou ali pra nunca mais sair.
Já não estranho mais quando me dou conta de que faz tempo que você não aparece na minha timeline do twitter ou do facebook. Continua sendo muito triste, mas ficou uma coisa normal também. Desgraçadamente normal.
Mas resolvi escrever essa carta pra você pra te contar o que andou acontecendo nesses 49 dias. Achei que você gostaria de saber.
Começo por te contar que no dia da cerimônia budista apareceu tanta gente de tantos lugares que ainda me espanta lembrar. Foi um ritual triste mas lindo, porque dava pra ver a força do afeto que reuniu todo mundo. Tinha até gente que não chegou a te conhecer pessoalmente, mas que estava ali, sentindo a sua falta.
Você não imagina como a sua morte aproximou um monte de gente que talvez não tivesse se conhecido em outra circunstância. É estranho, mas me parece coerente com o tipo de pessoa que você foi. Muita gente se conheceu e ficou amigo nesse dia.
Acho que isso aconteceu, também, porque desde que você se foi parece que ficamos todos muito à flor da pele por aqui. Toda hora alguém surge no twitter lembrando de você. Tem música que faz lembrar você. Tem frase que faz lembrar você. Tem notícia que faz lembrar você. E aí sempre a gente manda a tag #PraSempreSensho. Mas nem precisava, todo mundo do nosso circuito já reconhece na mesma hora a referência mesmo sem citar seu nome.
Outro dia usei a palavra 'adorável' pra definir uma cena que vi em Londres. O Esper matou a charada na mesma hora e reconheceu você ali.
A presidenta fugiu pra dar uma voltinha de moto por Brasília, dizem os jornais. E a gente só pensa que é uma pena não poder ler seus comentários sobre.
A saudade é tanta que volta e meia alguém recupera um tweet antigo seu. Ou uma postagem do seu blog. E é um certo alívio na saudade poder te sentir por perto assim.
Enfim, hoje, 49 dias depois daquele dia tão triste, podemos dizer que a vida segue. O twitter anda bem mais sem graça sem você, mas vamos tocando.
E veja só: o Esper já conseguiu até cozinhar feijão.
Saudade de você.


domingo, 21 de julho de 2013

Tchau, Senshô!

Eu sempre tenho dificuldade de entender um mundo que ande em linha reta. Deve ser por isso que procuro entender a vida avançando lentamente em espirais. E de vez em quando um círculo se fecha, como se fechou ontem. Foi assim, eu conto.
Quando nos falamos pelo Twitter pela primeira vez, em julho de 2011, um oceano nos separava: ele no Brasil e eu na Hungria, em férias. Muita conversa virtual rolou em capítulos de 140 caracteres, com a constatação de muitas afinidades entre a gente.
Depois, quando eu já estava de volta ao Brasil, marcamos um jantar, para nos conhecermos pessoalmente. Nunca me esquecerei da sua chegada: aquele homem enorme saltando diante de nós pra se apresentar, com seu sorriso lindo e seus óculos vermelhos. Nessa noite, na mesa no Pasquale, a conversa fluiu fácil entre nós seis. A gente já se conhecia e ao mesmo tempo estava se conhecendo naquela hora. Coisas da internet, que já trouxe tantas pessoas legais para a minha vida.
Continuamos nossa convivência cotidiana no Twitter, o que era delicioso. Suas frases eram irresistíveis:


As postagens dele eram sempre surpreendentes. Às vezes eu ficava rindo sozinha diante do celular, ao ler algo assim:


Houve mais um encontro, com muito amigos, ao redor de uma mesa no nosso querido Tubaína.
E num desses dias de maio último, através de um check-in dele no Foursquare, descobri que estávamos ambos na área de embarque em Congonhas. Nos encontramos, nos abraçamos e nos despedimos. Ele ia pra Brasília, eu ia pra Londrina (onde ele estudou e eu trabalhei). E eu não sabia que aquele seria nosso último encontro.
E agora, nesta triste semana, que se encerra hoje, estou novamente fora do Brasil. Em Londres, onde ele esteve há pouco tempo. Eu sabia, pelo Twitter, que ele estava no hospital e torcia pela sua recuperação.
Ontem fui a Greenwich, encontrar amigos e conhecer o lugar, e me lembrei de uma foto que ele tirou quando esteve lá: 


Enquanto ele estava no hospital, lutando pra sobreviver, eu passava pelos mesmos lugares por onde ele andou. Podia ser um sinal de boas notícias. Mas não era: na noite de sábado, ele se foi. 
Foi muito triste, mas foi também lindo ver o quanto as pessoas no Twitter gostavam dele. De repente, toda a minha timeline não tinha outro assunto. Muita gente retuitou alguns tuítes marcantes dele e por um momento dava a impressão de que ele estava ali, como sempre.
Meu amigo querido, que chegou na minha vida quando eu estava longe, foi embora também num dia em que um oceano está entre nós.
Para homenageá-lo, mesmo à distância, fomos a um pub, no horário previsto da cerimônia de cremação, e brindamos a ele e aos dois anos em que o tivemos por perto. Em frente ao pub, um grupo de senhoras de meia idade, meio bêbadas, cantavam e dançavam na rua músicas dos anos 70-80. Ele teria adorado.


(Este post é dedicado ao Esper)

segunda-feira, 20 de maio de 2013

Virando

Neste último final de semana aconteceu a Virada Cultural em São Paulo. Agora, já que tem muita gente falando bem e mal do que aconteceu lá, me achei no direito de dizer como foi a nossa experiência. Com fotos.
Começamos pelo sábado à noite, na Paulista:


Mais exatamente, na Casa das Rosas, onde Monica Salmaso cantava lindamente (embora com som num volume insuficiente para a quantidade de público), com André Mehmari ao piano:


Dali, depois de uma passadinha no Astor pra comemorar o aniversário de uma amiga querida, fomos para o palco da Barão de Limeira, ver Rita Benneditto mandar muito bem e ajudar a matar a saudade que a gente estava de ouvi-la cantar:


Depois de um show tão lindo, voltamos pra casa, pra repor as energias para o dia seguinte.
Demos uma passadinha pela Avenida São Luiz, e aproveitamos para comer um arroz de pato na barraca dos Bertolazzi. Carmem adorou:


Depois demos umas voltas ali pelo centro, aproveitando pra prestar atenção nas coisas lindas e horríveis da cidade que a gente adora:





No meio da tarde, enquanto todo mundo torcia vendo o futebol das tevês dos botecos, fomos ver o Oliveira de Panelas que se apresentou no palco do Rap da Rio Branco. Rap e Repente, todo mundo junto. Teve até repente pra quem ia postar fotos do show no Facebook:


Ali perto, tinha até igreja participando de modo independente da Virada:


Tínhamos planejado ir ver o show de encerramento, com o Jorge Drexler, mas o cansaço acabou chegando antes da hora. Passamos pelo palco durante a passagem de som, mas não ficamos. Em todo o caso, foi lá que eu vi uma cena que pra mim fechou a Virada Cultural 2013. Compartilho aqui:


Em resumo, a Virada Cultural, pra mim, é sempre uma possibilidade de ver a cidade ocupada pelos seus habitantes ininterruptamente durante 24 horas. Não fui furtada, não vi arrastões. Algum empurra-empurra na saída do metrô, na madrugada, mas nada muito diferente do aperto dos dias comuns na hora do rush (alô, governador, que tal manter as escadas rolantes funcionando da próxima vez?).
Posso ter dado sorte, mas também não dei bobeira: o celular melhorzinho ficou em casa e, no bolso bem justo da calça, só documento, um dinheirinho, bilhete único e a câmera fotográfica, sempre com a cordinha presa no pulso.
Depois de uma boa noite de sono pra repor o cansaço das andanças pra lá e pra cá, já tô pronta pra outra. Ainda bem, porque neste próximo fim de semana tem Virada Cultural em Santos! Oba!

sábado, 11 de maio de 2013

Quadros numa galeria

Na semana que passou, causou revolta em muita gente a declaração do dono de uma marca famosa de que não queria ver pessoas gordas usando as roupas de sua grife, porque ele quer que suas lojas sejam frequentadas apenas por pessoas bonitas. Olha o que disse o cara (que por sinal é bem feio):

"Em todas as escolas existem os adolescentes que são populares e descolados, e existem os que não são. Nós vamos atrás do primeiro grupo, que possuem atitude e muitos amigos. Muitas pessoas não pertencem a nossa marca e não podem pertencer. Nós somos excludentes? Totalmente".

Na verdade, pra mim, esse tipo de postura não é novidade. Acho que desde que me tornei adulta, tenho consciência de ter um corpo que não é o padrão: gorda, alta e de pés grandes. Com esses três atributos, aprendi uma técnica que é a de passar pelas vitrines de lojas de roupas e calçados como quem passa diante de obras de arte em uma galeria: pode-se gostar ou não deles, mas com a certeza de que eles jamais serão seus.
Como não ando descalça e pelada, como imagino que senhores como esse lá daquela grife gostariam, acabei encontrando aqui e ali formas de me vestir e me calçar, a duras penas. 
Imagino que já deve ter alguém aí pensando: "Mas por que ela não compra nas lojas especializadas para gordos e para mulheres de pés grandes?"
Calma, gente, não é tão fácil assim. Alguém já parou pra olhar os modelitos que estão à venda nas lojas de roupas para gordas? Em primeiro lugar, esqueça as roupas de algodão, tudo é feito de tecido sintético. Imagino que essa opção deva ser baseada na crença de que se nós, gordos, suarmos bastante dentro dessas roupas sintéticas e quentes, vamos acabar emagrecendo...
Os modelos também são de chorar. Tudo muito convencional, peças próprias de guarda-roupa de senhoras já avançadas na idade. Tá, eu sei que estou velha agora, mas nunca gostei de me vestir de modo muito convencional e não vai ser agora que vou começar a usar vestidinhos de jérsei bem comportados.
É muito difícil encontrar algo mais alegrinho, menos sisudo. É de deprimir qualquer um.
No capítulo dos sapatos, confesso que chego a sentir até algum alívio de que não façam calçados femininos acima de 39, porque eu não tenho muita vocação para saltos altos e brilhos. Mas ficar condenada a escolher, na vitrine masculina, algum calçado que me convenha, também é triste.
Enfim, minha gente, mesmo antes da declaração infeliz daquele senhor mencionado no início, eu sempre me senti excluída desse mundo das pessoas que escolhem roupas e calçados à vontade nas vitrines. O cara apenas escancarou o que quase todas as marcas já praticam desde que eu me entendo por gente.
Como sempre, continua um inferno achar roupas e sapatos pra mim. E duvido que isso vá mudar.

sexta-feira, 29 de março de 2013

Foi a gota d'água.

Muita gente tem motivos para se envergonhar de coisas da juventude. Eu também tenho.
Mas tem uma história de que eu me orgulho muito no meu passado.
Foi assim.
Era já o final de 1977 e eu tinha acabado de completar 18 anos. Meu pai não permitia que seus filhos viajassem sozinhos nunca. Só viajávamos em família.
Eu, até então, nunca tinha posto meus pezinhos em São Paulo, já que sempre moramos no interior e a capital era um monstro para meu pai, que nunca quis nos levar até lá.
Acontece que eu jogava basquete no time da escola, e naquele ano, que era o meu último do colegial (o que hoje chamam de ensino médio), conseguimos nos classificar nos Jogos Colegiais para disputar o título estadual em São Paulo.
Meu pai foi logo dizendo que não me autorizava a ir, mas a técnica do time foi em casa pessoalmente fazer uma campanha para que ele autorizasse minha ida.
Parêntese: não é que eu jogasse bem, é que o time estava muito desfalcado e não haveria ninguém - fora eu e uma colega que convalescia de uma cirurgia - para ficar no banco.
Meu pai acabou autorizando a viagem e lá fui eu.
Ficamos alojadas no Parque da Água Branca, no que ainda hoje se chama Conjunto Desportivo Baby Barioni.
Nem cheguei a sair do banco e nós ficamos em penúltimo lugar na classificação, mas foi uma delícia de viagem.
Principalmente por causa do que vou contar agora.
A técnica (só me lembro de que ela tinha o apelido de Tica) nos perguntou o que gostaríamos de fazer em São Paulo nos momentos de folga dos treinos e jogos. E eu, a mais caipira das caipiras que ali estavam, não hesitei. Disse logo que queria assistir à peça "Gota d'água", de Chico Buarque e Paulo Pontes, que estava em cartaz no Teatro São Pedro,com Bibi Ferreira no papel principal.
Tica adorou a ideia. Mais uma colega também quis ir e assim, ingressos comprados nem sei mais como, lá fomos nós.
Foi um deslumbramento para meus olhos de menina criada no interior, longe de quase tudo que me interessava culturalmente. Nunca me esqueci desse dia.
Sinto o maior respeito pela adolescente que eu fui. Na sua primeira vez em São Paulo, em lugar de querer conhecer shopping, Mappin ou Playcenter, optou por ir ao teatro ver uma peça que marcou época. E me marcou para sempre.
E hoje, ao encontrar no Facebook (graças à Márcia Guimarães) esse filme aqui, me lembrei de tudo isso. Qualquer dia consigo achar, em meio aos meus caóticos papéis, o canhoto do ingresso. Quando isso acontecer, posto aqui.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Jaculândia

A Silvia Oliveira (@matraqueando), do Matraqueando lançou o desafio no Twitter: quem nunca tirou uma foto daquelas de causar vergonha a posteriori? Ou, nas palavras dela: a famosa foto jacu.
Daí, neste post aqui, surgiu a proposta de blogagem coletiva sobre o tema.
Animada, fui dar uma vasculhada nos arquivos de fotos de viagens passadas. E lá estavam elas, muitas, dezenas de fotos jacu. Talvez chegassem à casa das centenas, se eu tivesse me aplicado melhor na busca.
Mas quer saber? Poder olhar o álbum e rolar de rir com as fotos ridículas é uma delícia... Então vamos lá, uma antologia dos meus melhores - piores - momentos de jacuzice.
Amanhã, 15 de fevereiro, rola uma edição especial do Foto de viagem sobre o mesmo tema, no twitter (com as tags #FotodeViagem e #FotoJacu) e no Facebook (nesta página aqui). Pretendo colocar mais fotos por lá. Apareça!

Foto Jacu 1:


Nunca, jamais, em tempo algum, apareça vestida de neoprene numa foto, como nesta, tirada em Bonito, em 2002 (desculpa qualquer coisa, Cláudio).


Foto Jacu 2:


Dããããã... é o mesmo domo do guia, gente!


Foto Jacu 3:


Conversar com estátuas indefesas, um clássico das fotos jacu. Aqui a vítima é Jorge Amado, em Ilhéus.


Foto Jacu 4:


Uma variante da foto escorando a Torre de Pisa: segurando a pirâmide invertida do Louvre com um dedinho. Quem nunca?


Foto Jacu 5:


Nenhuma legenda faria jus a tamanha ousadia, né? Em Barcelona.


Foto Jacu 6:


A pessoa vai pra Ushuaia, fim do mundo, mas não deixa a jacuzice de fora do passeio.


Foto Jacu 7 (e última, por hoje):


Porque não há limites para o exotismo no quesito "look of the day", né?


Pra quem quiser ver mais vexames, basta ficar esperto e seguir outras postagens de fotos no Facebook e no Twitter amanhã.

PS - Gente, a Silvia tá atualizando todo dia a lista dos blogs que estão participando do festival jacu! Pase lá pelo Matraqueando pra ver, porque eu não daria conta de atualizar!