sábado, 6 de novembro de 2010

Historinha pra boi não dormir

Vou hoje usar este espaço pra contar uma historinha ocorrida comigo. Como não tenho mais esperança de um final feliz, contando aqui eu pelo menos desabafo...
Em outubro de 2008, eu queria comprar um netbook. Andei pesquisando pelos sites de comparação de preços (Buscapé) e encontrei o melhor preço: 812 reais por um Asus EEEPC900. O preço das lojas andava pela casa dos mil reais, chegando até mil e duzentos. Ou seja , o preço da Oferta Digital - este era o nome da loja, sediada em Guarulhos - era mesmo imbatível.
Comecei a procurar informações sobre a loja e descobri que ela era muito bem avaliada, tanto no Buscapé quanto no E-bit, com depoimentos que reafirmavam a qualidade dos serviços da empresa e os bons preços por ela praticados.
Liguei pra lá e perguntei sobre os prazos de entrega do netbook, pois eu precisaria dele para uma viagem que faria. Disseram-me que o prazo máximo era de uma semana, mas, já que eles tinham o produto em estoque, provavelmente eu o receberia antes disso. Fiz uma transfêrencia bancária na mesma hora e fechei o pedido por telefone.
O netbook nunca foi entregue. Sucessivos contatos com a loja tinham como informação o fato de que havia um problema de estoque mas que logo isso seria solucionado. Finalmente, um mês depois da compra, no final de novembro, recebi um e-mail dizendo que, para receber o produto, eu teria de pagar mais 388 reais, pois o dólar havia subido e eles não tinham como fornecer o netbook pelo valor original. Ou seja, eu acabaria pagando por ele o mesmo valor praticado pelas outras lojas, na época em que fiz o pedido.
Recusei a proposta, porque entendia que o pedido feito no final de outubro tinha de ser honrado pela empresa, no valor daquela época, pois afinal este fora o grande critério para que eu escolhesse a Oferta Digital e não outra empresa.
A alternativa que ele me propunha era receber os 812 reais de volta, sem nenhuma correção. Não aceitei e disse que iria ao Procon.
Fiz isso. O Procon marcou audiências às quais os responsáveis pela Oferta Digital nunca compareceram. Diante disso, o Procon me encaminhou para o Juizado de Pequenas Causas.
Nesse meio tempo, a loja fechou. O site foi retirado do ar e eu descobri que as avaliações favoráveis feitas à loja no Buscapé e no E-bit tinham desaparecido. Descobri também que havia um grupo significativo de consumidores lesados pela mesma empresa que formaram até um grupo virtual para trocar informações. Havia inclusive pessoas com prejuízos muito maiores que o meu.
Dois anos depois, a situação é a seguinte: o Juizado de Pequenas Causas julgou o caso à revelia dos acusados, que nunca compareceram às audiências, e a empresa foi condenada a me devolver o dinheiro corrigido e arcar com as custas do processo. Como a razão social da empresa é Rafael Leite de Oliveira Informática - EPP (CNPJ 06.115.558/0001-07), a justiça tentou intimar essa pessoa, considerada responsável pela empresa, mas ele nunca foi encontrado em nenhum dos endereços disponíveis para ser intimado. Também não foi encontrada nenhuma conta bancária em seu nome, o que facilitaria as coisas.
Com isso, estou em vias de ver a ação extinta, por falta de um endereço onde este senhor possa ser encontrado e intimado. Assim, ele se veria livre e eu perderia a esperança de receber de volta meu dinheiro tomado por ele.
Ou seja, é muito fácil arrancar dinheiro das pessoas e ficar livre, não é? Ainda mais contando com a ajuda - não estou dizendo que consciente ou voluntária - de sites de avaliação de lojas que acabam induzindo consumidores ao erro, por possibilitarem de alguma forma que avaliações falsas sejam postadas, classificando como confiáveis algumas empresas que agem de má fé.
Pronto, falei e desabafei. Se vou perder para sempre esses 800 e poucos reais, pelo menos posso botar a boca no trombone e avisar os incautos, porque já soube que o mesmo grupo age agora com outra empresa. Não vou dizer o nome, mas uma rápida busca de equipamentos de informática à venda farão surgir o nome de uma loja com preços imbatíveis, sediada em Guarulhos... A história se repete, com a mesma chancela dos sites de avaliação de lojas online.
PS - Mandei e-mails para Buscapé e E-bit, queixando-me disso, mas jamais recebi respostas.



domingo, 26 de setembro de 2010

Psiulândia nas eleições



Um amigo meu tem um blog chamado No centro das minhas atenções e outro dia ele escreveu um post sobre critérios para não votar em candidatos nessas eleições. Pra quem quiser conhecer o post dele na íntegra, é só clicar aqui.
Concordo com ele em praticamente tudo, mas acho que eu resumiria minhas restrições a três, que considero mais graves:
1. Candidato que faz propaganda com carro de som pela rua. Onde eu moro tem alguns candidatos locais que contratam carros para ficar rodando por cada bairro o dia todo. Eu anoto bem direitinho o número deles, só pra ter o cuidado de NÃO votar neles e ainda fazer propaganda contra.
2. Candidato que usa o ridículo recurso de ligar pra casa da gente com aquelas gravações. Será que algum deles realmente pensa que ganha voto assim? Ligações em horas inconvenientes, recados gravados nas caixas postais... Tem candidato que não se toca mesmo!
3. Candidato que manda e-mails ou me adiciona nas redes sociais pra fazer propaganda eleitoral. Denuncio como spam, bloqueio e anoto nome e número pra nunca mais correr o risco de votar nele.
Cavaletes pelas calçadas, folhetos sujando as ruas, tudo isso eu também acho desagradável, mas pra mim os 3 maiores pecados são esses da lista. Não voto MESMO em quem faz esse tipo de propaganda.
Quem sabe um dia a gente consegue banir da nossa vida esse tipo de invasão?

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

Barulhão bão!

Neste último domingo, assisti pela primeira vez a um espetáculo do grupo inglês Stomp, e fiquei maravilhada. Pra quem não conhece, basta dar uma googlada nesse nome e se divertir. Tem até filmes no YouTube.
São eles também que aparecem numa das propagandas do sistema Dolby de som, nos cinemas. Ficaram famosos fazendo música com latões de lixo presos aos pés, como nesta imagem:



Os caras são bons demais e provam que é possível fazer música com tudo o que consideramos lixo e sucata. Nas mãos - e pés - deles, latões de lixo, placas de trânsito, caixinhas de fósforo, copos de refrigerante, jornal, saco plástico, o próprio corpo, tudo vira instrumento.
Para quem é assim tão rabugenta com o mundo barulhento em que vivemos, foi um alívio assistir àquela apresentação.
Durante o espetáculo, me lembrei muito de um percussionista brasileiro chamado Loop B, a quem, em abril do ano passado, mencionei num post aqui sobre sacos plásticos. Ele faz um trabalho semelhante ao do Stomp, tirando música de qualquer objeto, inclusive de sacos plásticos. Pra quem quiser reler, o (longo) post está neste link.
É sempre reconfortante constatar que, num mundo tão cheio de lixo e barulho, existem pessoas capazes de fazer com que a sucata vire música.
Pra quem se interessar, tem um álbum de fotos que fiz durante o show do Stomp bem aqui.
Além disso, a minha amiga Carla Dias fez um super post no blog dela, ilustrado com algumas das minhas fotos. Pra ler o texto como sempre super inspirado dela, clique aqui.

domingo, 8 de agosto de 2010

Pobre Tiradentes!


Como prometi no post anterior, chegamos à segunda questão. Começo dizendo que eu tenho adoração pelas cidades históricas de Minas, principalmente por Ouro Preto, cidade que me deixa sempre emocionada. Mal começo a enxergar o Itacolomi no horizonte e já fico com os olhos cheios d'água. Ando pelas ruas imaginando tudo o que se passou por lá, olho para as casas e penso no que aquelas paredes centenárias testemunharam, enfim, sou constantemente assombrada pelos fantasmas dos séculos passados que certamente rondam por aquelas ruas.
Enquanto estava lá emocionada, andando pelas ruas, encontrei, com muita frequência, carros com aqueles sons potentes, tocando música ruim em volume tão alto que ninguém consegue mais pensar em nada! Em Mariana, inclusive, no domingo, a apresentação de música barroca com violino acompanhando o maravilhoso órgão Arp Schnitger da Sé teve de ser suspensa por alguns minutos, enquanto passava pela rua um desses chatos ambulantes.
Fiquei até pensando se a vibração poderosa dos sons graves desses alto-falantes não prejudicaria, de alguma maneira, as frágeis testemunhas da nossa história que ainda existem por lá. Será que as pedras e as madeiras do século XVIII não são abaladas por aquela vibração desagradável? Não deve ser à toa que esse gênero de "música" também é chamado de bate-estaca!
Ainda que não haja esse inconveniente, uma coisa certamente é quebrada por esses carros que pululam por Ouro Preto e arredores: a sensação que conseguimos parar um pouco o tempo e sentir de alguma maneira o ambiente, o clima, a energia que andava por aquelas ruas.

Altas capelas cantam-me divinas
fábulas. Torres, santos e cruzeiros
apontam-me altitudes e neblinas.

Ó pontes sobre os córregos! Ó vasta
desolação de ermas, estéreis serras
que o sol frequenta e a ventania gasta!

Teria Cecília Meireles conseguido escrever versos como estes, do Romanceiro da Inconfidência, ao som de um bate-estaca nas ruas de Ouro Preto? Poderia ela imaginar que um dia, mais do que a frequência do sol e a erosão causada pela ventania, a cidade veria a frequência dos carros subindo e descendo as ladeiras com o som nas alturas, com seus bate-estacas desgastando as frágeis pedras históricas que sobreviveram à ventania?

sábado, 31 de julho de 2010

On the road!

No fim de semana passada, Carmem e eu resolvemos fazer um passeio a Mariana, em Minas Gerais, com direito a escapadas pelas vizinhanças, sobretudo a Ouro Preto. A viagem foi ótima e, em seu blog, Carmem contou todas as coisas legais que fizemos por lá. Aqui, entretanto, pra fazer jus ao espírito rabugento do blog, vou falar apenas das coisinhas que me incomodaram na viagem. São basicamente duas. Hoje falo de uma, em outro post eu falo da outra.
Indo às cidades históricas de Minas, o primeiro problema é a forma de chegar lá. No nosso caso, pegamos um voo São Paulo - Belo Horizonte e de lá alugamos um carro para ir até Mariana. Saindo do Aeroporto de Confins, não existe NENHUMA placa indicativa de direção a tomar. Saímos para a direita por puro instinto. Pouco depois, a primeira placa indicava quanto faltava para chegar à "cidade"! Cidade? Qual cidade? Confins? Belo Horizonte? Brasília? Londres? Deduzimos que fosse Belo Horizonte e seguimos em frente. Por sorte, era mesmo. Placas que indicassem a direção a tomar para ir a Ouro Preto, cidade patrimônio da humanidade, nem pensar. Só o GPS podia nos ajudar nessa hora, e foi graças a ele que chegamos ao anel rodoviário de Belo Horizonte, onde, depois de andar bastante, vimos a primeira placa indicando Ouro Preto. (Antes que eu me esqueça, também no caminho de volta dependemos do GPS para encontrar o caminho do Aeroporto de Confins, só muito tardiamente sinalizado.)
Uma vez na estrada, cheia de curvas e quase sempre em pista simples, saltam aos olhos as más condições do asfalto. O limite de velocidade não é obedecido por ninguém, carros, ônibus ou caminhões. Durante todo o trajeto, incluindo ida, volta e passeios na região, não vimos sequer um guarda rodoviário. A sensação é de salve-se quem puder.
Como turista, eu não conhecia bem a estrada. Além disso, com um carro alugado, eu tendia a andar mais devagar. Minha velocidade média, entretanto, ficou em torno de 80 km por hora, velocidade máxima da pista na maior parte do tempo.
Enquanto isso, os carros que se aproximavam atrás de nós acendiam os faróis, forçavam ultrapassagem, e alguns até mesmo me empurravam em direção ao acostamento, já que a ultrapassagem forçada em pontos sem visão muitas vezes incluía dar de cara com outro carro vindo na pista oposta. A solução era empurrar a lerdinha - eu, no caso - para o acostamento, pra dar pra passar todo mundo sem colisão. Recebi buzinadas, faróis altos, xingamentos, fechadas. Tudo porque eu teimava em andar nos 80 km por hora recomendados nas placas.
Até mesmo um carro oficial, do Governo Federal (um SpaceFox placas GMF 5639) passou por nós fazendo ultrapassagens malucas, colocando em risco a segurança dele e a dos carros próximos, aparentemente sem que o motorista se lembrasse de que aquele era um carro a serviço do povo brasileiro.
Pra agravar ainda mais as condições, diversas vezes encontramos cavalos soltos pela pista, colocando em risco a segurança de quem transitava de carro por ali...
É assim que esperamos que os turistas possam conhecer e amar umas de nossas regiões mais bonitas? Com uma estrada apertada, cheia de curvas, com asfalto ruim, sem vigilância e com motoristas suicidas - e homicidas também, claro - soltos por lá? Sinceramente, não dá vontade de voltar nunca mais para aquela região.
Alô governo de Minas Gerais, alô IPHAN, alô Embratur! Vamos lembrar que uma de nossas jóias históricas mais valiosas está esquecida? Que tal um trabalho intensivo para tornar o passeio às cidades históricas uma experiência inesquecível apenas pelas boas lembranças?

sexta-feira, 9 de julho de 2010

Eu sei o que Gal Costa comeu ontem no jantar!

Ouvi certa vez uma piada da qual gostei muito. Resumidamente, era o seguinte: um náufrago sozinho numa ilha salva outro náufrago, que vinha a ser uma belíssima mulher, atriz famosa. Ela, muito grata, dispõe-se a atender todos os desejos dele, inclusive no campo sexual. Ele fica muito feliz no início, mas alguns dias depois começa a ficar deprimido. A atriz, compadecida, pergunta o que aconteceu e ele disse que tinha um desejo secreto mas não tinha coragem de confessar. Ela se mostra aberta a qualquer coisa, então ele pede que ela se vista de homem, dê uma volta na ilha e e se encontre com ele, como por acaso. Ela atende ao pedido, estranhando um pouco mas curiosa. Quando se encontram, ele logo vai dizendo: "Cara, você não sabe quem eu estou comendo, aquela atriz famosa!"
Sempre achei essa piada muito reveladora de um dos traços mais característicos dos seres humanos, que é um certo exibicionismo. Ok, a piada fala dos homens, mas acho que todos somos assim em maior ou menor grau: boa parte da graça daquilo que fazemos está em poder contar aos outros que fizemos.
Pra mim, isso explica muito do sucesso do Twitter: é possível retransmitir aos amigos, quase em tempo real, as coisas bacanas que fazemos e que queremos que todos saibam. Assim, a timeline do twitter às vezes parece um território encantado, onde todos contamos como é gostoso o prato que estamos comendo naquele momento, naquele restaurante bacana; como o show que estamos vendo está demais; como está lindo o nosso jardim; como o pôr-do-sol visto da nossa janela é deslumbrante; como o lugar para onde viajamos é maravilhoso e assim vai...
Claro que há postagens mais na linha da denúncia: um ônibus flagrado parado em cima da faixa de pedestres, um avião pousado no rio, um prédio em chamas, mas parece mesmo que a maior sensação é poder mostrar aos seus seguidores como você é feliz. A própria palavra "seguidores", aliás, às vezes nos coloca numa posição hierarquicamente superior à dos nossos seguidores. E de hierarquicamente inferiores aos que seguimos, claro.
Eu comecei a usar o Twitter no início do ano passado, justamente quando aquele avião pousou no rio Hudson e notícia com foto apareceu primeiro na postagem de um tuiteiro que passava por lá na hora. Achei muito legal essa possibilidade de compartilhamento quase instantâneo, e na mesma hora criei minha conta. Eu tinha acabado de comprar um smartphone, então logo comecei a usar o Twitter não só no computador mas também - e principalmente - através do Gravity (um ótimo aplicativo do Twitter), no meu celular. Fiquei viciada.
Mas confesso que tenho outro vício: o de pensar sobre as coisas. Então notei que um outro efeito interessante proporcionado pelo Twitter é uma sensação de intimidade - no mais das vezes falsa - com as pessoas que não conhecemos pessoalmente mas que seguimos por ali. Acompanho alguns perfis de celebridades, e confesso que é engraçado, por exemplo, ler Gal Costa contando que vai jantar um caldo verde na companhia de seu filho ou Roberta Sudbrack mostrando uma foto do seu cachorro Frederico passeando pela casa. Acho que esses flagrantes da intimidade dos famosos criam uma falsa sensação de que compartilhamos de seu universo, colocando-nos mais próximos deles.
Ver na minha lista de seguidores o perfil de Yoko Ono, por exemplo, fez com que eu me sentisse poderosíssima... Mas nada como olhar a lista de pessoas que ela segue e ver que sou apenas uma entre quase 350 mil pessoas. Ou seja, quem diz seguir 350 mil pessoas é porque não segue ninguém, né?
Uma outra característica do Twitter são os perfis falsos de celebridades, que muitas vezes são até mais famosos do que os verdadeiros. Existem também as personalidade que só têm vida própria no Twitter.
Quer saber? No fundo, acho que em maior ou menor medida somos todos fakes no Twitter... O jeito é encarar tudo como uma encenação, como de resto é nossa vida toda! Para concluir, um trechinho da "Tabacaria" do Álvaro de Campos que, penso eu, tem tudo a ver com esse assunto:

Fiz de mim o que não soube
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido.
Estava bêbado, já não sabia vestir o dominó que não tinha tirado.
Deitei fora a máscara e dormi no vestiário
Como um cão tolerado pela gerência
Por ser inofensivo
E vou escrever esta história para provar que sou sublime.

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Civilização e barbárie.

Dia desses vivi uma situação que me fez pensar. Começo pelo relato dos acontecimentos.
Era dia de jogo do Brasil, nessa primeira fase da Copa. Eu tinha ido almoçar e estava voltando pra casa, um pouco antes do horário do início do jogo. Em plena Avenida Paulista, havia um vendedor de vuvuzelas, como era de se esperar.
Ele trazia, no entanto, um instrumento que eu ainda não tinha visto (embora já tivesse ouvido falar dele): uma vuvuzela dupla, em que, a partir de um só bocal, distribui-se o sopro por duas cornetas.
Eu me aproximei do vendedor e perguntei como aquilo funcionava, porque queria ter uma dimensão do tamanho do barulho e ele, todo feliz, fez uma demonstração para mim, certo de que tinha ganhado uma freguesa...
Eu ouvi aquilo e disse pra ele minha opinião sobre o aparato: "Inferno em dose dupla!"
O vendedor imediatamente se contrapôs e disse: "Nada disso: quem quer sossego fica em casa: entra, fecha a porta e pronto!"
Eu fui andando e pensando nessa frase.
Em primeiro lugar, esse sossego do lar só seria possível se todos vivêssemos em casas com isolamento acústico! Mas não vou nem usar esse argumento, porque o problema maior, pra mim, nem era esse. Ainda que esse refúgio fosse possível, acredito que há, na frase do vendedor, uma inversão do conceito de público e privado.
É como se, ao sair de minha casa para um espaço público como a rua, eu aceitasse um pacto de barbárie e tivesse, portanto, de me sujeitar a conviver com pessoas num ambiente em que tudo é permitido, em que vale tudo.
Segundo meu ponto de vista, segundo tudo o que aprendi em casa e na escola, no ambiente privado de minha casa é que eu poderia viver, agir, falar como eu quero. No ambiente público, tenho de lembrar que se trata de um espaço de convivência e, portanto, limitado pelos direitos dos que compartilham esse espaço comigo.
A frase do vendedor me fez enxergar uma razão para todas aquelas loucuras que vemos em nosso dia a dia, em qualquer lugar de convivência social: todos agem conforme sua vontade, sem a menor consideração pelos demais. Conversas em voz alta, celulares tocando música sem fone de ouvido, som alto nos carros, buzinas, lixo, sujeira, agressões, vuvuzelas: tudo está permitido no espaço público. Quem deseja algo diferente disso deve ficar em casa. No espaço público consente-se a barbárie. Quem quer civilização, fique em casa.
Alguém me explica o que foi que aconteceu com o mundo?

domingo, 20 de junho de 2010

Assim caminha a humanidade...

Vi uma matéria publicada hoje no Estadão (o link está aqui), anunciando que as queixas sobre barulho feitas ao 190 da Polícia Militar cresceram 226% de 2006 a 2010.
A equipe do jornal acompanhou o trabalho da PM numa noite de sexta-feira fria: foram 448 chamados ao 190 por causa de barulho. Segundo a matéria, em noites de calor esse número sobe de modo significativo.
Durante a semana, a média é de 392 casos, crescendo para 1.118 de sexta-feira a domingo.
As ocorrências são motivadas por festas, bebedeiras, rezas, cantorias e rojões e geralmente ocorrem nos bairros mais periféricos.
Segundo a PM, nos bairros mais centrais, os problemas maiores são com igrejas e bares, mas os vizinhos mais "escolados" já apelam direto ao Psiu. A PM acaba ficando responsável pelas ocorrências mais periféricas e eventuais: "Multar bares com alvará é fácil. Agora, como fechar uma festa na periferia ou um boteco sem alvará?", diz o Major Ulisses Puosso, comandante do Copom.
Os casos narrados ali vão desde um grupo de moradores que fecha a rua para uma festa sem autorização a carros estacionados na rua com alto-falantes no máximo durante a noite.
Eu acredito que ocorrências assim se devem principalmente à sensação de impunidade que reina solta. Se houvesse um acompanhamento que punisse os responsáveis por situações como essas, nossos ouvidos ficariam mais sossegados e a PM poderia cuidar daquilo que realmente é sua função: combater o crime.
A tarefa de cuidar dos excessos de barulho seria do Psiu, mas para isso seria necessário um investimento real para capacitar a equipe para cuidar não só de bares e igrejas já estabelecidos mas também de ocorrências eventuais, com agilidade e eficiência
Alô, governantes: quando isso vai acontecer?
Até onde vai chegar essa sensação de "tudo é permitido" em que vivemos?
Por último, não custa lembrar que muitos desses problemas são decorrentes de uma educação muito deficiente. Um investimento nas nossas escolas públicas certamente contribuiria muito para termos uma convivência mais respeitosa e silenciosa nas cidades em que vivemos.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Vovó viu a vuvuzela.


Já começo avisando: eu não gosto de futebol. Não tenho um time preferido e praticamente me obrigo a ver os jogos do Brasil na Copa. Geralmente enquanto faço alguma outra coisa pra me distrair do tédio que aqueles 90 minutos me causam. Não deixo de assistir porque também não quero ficar de fora dos papos e noticiários, que em época de Copa só versam sobre esse tema.
Agora em 2010, a reboque das conversas e notícias, surgiu a palavra "vuvuzela", que eu nunca tinha ouvido antes. Lá fui eu em busca de informações, portanto!
Descobri graças ao Google que se trata de uma corneta usada na África do Sul, durante os jogos de futebol. Até aí, nada de novo.
As novidades preocupantes apareceram depois, quando achei algumas notícias relacionadas ao volume do ruído de uma vuvuzela: 114 decibéis. Tocando simultaneamente, chegam a 127 decibéis. Muito mais do que um helicóptero decolando (98 decibéis), do que o trânsito infernal de São Paulo (média de 80 decibéis na Marginal do Tietê). Tambores chegam a 122 decibéis. Apitos a 121.
Segundo informações do Robert Beiny que encontrei aqui, numa pessoa exposta a som de volume superior a 100 decibéis a perda auditiva pode acontecer depois de apenas 15 minutos.
Agora imaginem as pessoas expostas durante 90 minutos a essa orquestra de vuvuzelas nos estádios!!!
Segundo a Norma Regulamentadora 15 do Ministério do Trabalho e Emprego, a tolerância humana para sons altos como o da vuvuzela é de apenas 8 minutos. A mesma norma afirma que é proibido expor qualquer pessoa a níveis de ruído acima de 115 decibéis sem proteção no ouvido. Essas normas existem para proteger as pessoas da surdez, mas parece que ninguém da FIFA pensou nisso quando autorizou o uso das vuvuzelas nos estádios da Copa.
Alguns afirmam que a vuvuzela é um instrumento africano tradicional e que impedir o seu uso seria uma violência cultural... Se o critério é só esse, vamos aceitar outras "manifestações culturais" violentas, como a mutilação genital feminina, tradicional em muitos países da África, por exemplo, né?
Pelo menos fica o consolo de que há algumas campanhas para banir esse costume e livrar nossos ouvidos da surdez iminente. Uma delas pode ser encontrada no site vuvuzelas.org, infelizmente disponível apenas em alemão. A campanha deles usa este banner, que coloco aqui pra quem quiser aderir:

É isso aí: por um mundo mais silencioso, fora com as vuvuzelas. Talvez assim eu até tenha uma objeção a menos quanto a ver os jogos da Copa...

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Celulares & campanhas.

Outro dia recebi de um aluno blogueiro (Abraçador), que passeia aqui pela Psiulândia, um e-mail lacônico, dizendo apenas "outro chato", com o link de um vídeo no Youtube. Fui lá ver e era o canal maspoxavida, de um cara chamado PC Siqueira. Parece que só eu não conhecia o cara, que já foi até parar na MTV.
É um garoto vesgo, com cara de nerd, falando sobre assuntos variados diante do espelho.
Pois bem, no tal vídeo indicado, o garoto fala sobre gente que ouve música no celular, dentro do ônibus, sem fone de ouvido. As propostas radicais dele começam com colocar Beethoven no celular pra fazer guerra de música, jogar pra fora do ônibus os inconvenientes e, por último, propõe uma campanha para que algum sociopata se disponha a matar essas pessoas.
Ele fala isso tudo na mais completa impassibilidade, então chega a ficar engraçado e acho que ninguém vai levar a sério a campanha dele.
Outra campanha apareceu hoje no Twitter, lançada pelo @gi_groff: "Participe você também da campanha: Doe um fone de ouvido para o celular de um funkeiro". O pessoal dos @Destemperados logo completou: "E dos pagodeiros".
Taí uma campanha menos radical e talvez mais eficiente que a do PC Siqueira! Eu acho que vou aderir!
Tenho aqui em casa um monte de fones de ouvido daqueles distribuídos de brinde no avião e vou deixar alguns na bolsa para uma hora dessas. Alguém começa a ouvir música no celular sem fone de ouvido e ato contínuo eu saco da bolsa um fone de ouvido de brinde!
Nossa Senhora das Trompas de Eustáquio não permita que haja incompatibilidade nos plugs!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

No escurinho do cinema...

Eu já tratei de questões relacionadas ao cinema num post anterior (Pedofilia e batatas fritas), mas resolvi voltar à questão depois que recebi um e-mail de uma amiga, que reproduzo abaixo:

Aos meus amigos mais seletos: acabei de chegar do cinema. Mais uma vez minhas orelhas foram massacradas por um som muito acima dos decibéis que meus ouvidos consideram razoáveis. É implicância minha ou os filmes são projetados para surdos... como, aliás, ficaremos todos, se frequentarmos estes cinemas. Desta vez chamei o responsável, que, solícito me informou que o permitido, no filme, é " nível 4", e que o trailer já vem mais alto mesmo, "pq é projeção digital". É isso mesmo? Faz algum sentido? Ou o assunto é irrelevante, alienado, coisa de burguês?

Não é coisa irrelevante, não, minha amiga, porque eu também já sofri nos cinemas com som alto demais para os meus ouvidos. No mais das vezes, isso acontece mesmo durante os trailers, mas já tive o desprazer de ver um filme inteiro em som mais alto do que o razoável.
Eu não tenho uma explicação pra isso, mas tenho alguns palpites.
Como já estou velhinha, posso, por exemplo, falar que ir ao cinema, no meu tempo, era diferente. A gente ficava num silêncio quase religioso, logo que as luzes se apagavam, pra ver os trailers e já ir programando as próximas idas ao cinema. Depois o filme começava e o máximo que a gente fazia era pegar uma balinha na bolsa e eventualmente cochichar com os acompanhantes o comentário sobre alguma cena.
De uns tempos pra cá, a coisa mudou muito.
Pra começar, todos vão ao cinema como quem vai a um pic-nic, com baldes de pipoca, sacos de fast-food e copos gigantescos de refrigerante.
Além disso, todo mundo conversa em alto e bom som até que a primeira frase do filme seja dita. Ninguém dá a mínima para os comerciais, para os avisos, para os trailers e até mesmo para os créditos iniciais do filme. Enquanto não aparece no filme um personagem abrindo a boca, ninguém na platéia fecha a sua.
E quando alguém quer conversar com o vizinho de poltrona ou atender telefone no meio da sessão, não é preciso cerimônia.
Fico pensando se esse tipo de comportamento que vemos hoje nos cinemas não é típico de uma geração que cresceu já com as facilidades de videocassetes e dvds. Quando essas coisas ainda não existiam - sim, eu sou desse tempo - a gente não podia perder uma frase do filme, porque só dava pra ver de novo pagando outro ingresso ou rezando pra passar na televisão algum dia.
Outro dia resmunguei para um espectador falante no cinema que ali não tinha tecla de voltar a cena... Ele conversava como quem não tem a menor preocupação de perder trechos do filme!
Nesse contexto, minha amiga, não é de se estranhar que o volume dos cinemas esteja acima do que consideramos saudável: estão tentando calar a boca dos espectadores barulhentos e fazê-los prestar atenção ao que se passa na tela. E quem paga o pato dessa briga são os nossos ouvidos, mais uma vez...
Mas fico pensando: será que uma estratégia contrária não seria mais eficiente: Quem sabe se decidirem passar todos os trailers e o filme com o som bem baixinho as pessoas não param de falar e tentam escutar?
Alguém pode tentar convencer um projetista a fazer o teste?

sexta-feira, 30 de abril de 2010

Traduzindo calorias

Confesso: eu adoro procurar novidades no supermercado. Foi assim que encontrei um pacote de brownies de chocolate amargo e fiquei com desejo de experimentar.


Outra confissão: não compro nada de comer, principalmente guloseimas, sem antes checar o valor calórico. Mania de quem passou 87,3% da vida tentando perder peso.
Mas voltemos aos tais brownies. Eles pareciam deliciosos. Eram importados. Lá fui eu em busca da tabela nutricional. Havia uma etiqueta da importadora, encobrindo a tabela original, supostamente para facilitar nossa vida transpondo todas as informações para o português. E lá estava a informação maravilhosa: 25 gramas daqueles brownies tinham apenas 35 calorias! Praticamente uma bênção na vida de quem precisa fazer regime mas tem síndrome de abstinência de chocolate!


Comprei um pacote na mesma hora para experimentar a tal maravilha.
Chegando em casa, abri o pacote e experimentei um: delicioso! Tão delicioso que comecei a achar que tinha algo de errado naquela contagem de calorias...
Levantei aos poucos a etiqueta e lá estava a tabela original, com uma informação diferente: 31 gramas (peso de um brownie) equivalem a 140 calorias!!! Quatro vezes mais!


Alguém me explica o que aconteceu? Vá lá que muita coisa se perca numa tradução, que toda tradução seja sempre uma traição, mas nunca soube que isso acontecesse com calorias!
Outra coisa: cada brownie pesa 31 gramas, como informa a etiqueta original:


Então por que cargas d'água o total de calorias da etiqueta brasileira é baseado no peso de 25 gramas? Vou ter de comprar uma balança de precisão pra ir pesando pedacinhos de brownie até atingir a fração correspondente a esse peso?


Alguém me explica? Ou avisa a vigilância sanitária?

domingo, 25 de abril de 2010

Psiu na estrada!

Em 2008 estive em Portugal e, viajando por lá, percebi, em alguns trechos das estradas, placas que isolavam a pista do resto do cenário. Em alguns trechos elas eram transparentes, então dava pra ver as aldeias ao lado. Em outros pontos, tiravam completamente a visão dos arredores.
Achei estranho e lamentei, porque uma das coisas boas de viajar é poder ir olhando a paisagem passando na janela, e as placas impediam isso. Não cheguei a descobrir para que serviam as placas até bem recentemente, quando soube que eram isolantes acústicos, para que o barulho dos veículos na estrada não tirassem o sossego dos moradores das aldeias muito próximas da pista. Ou seja, super civilizado! Achei o máximo!
Lembrei disso quando recebi, há alguns dias, um recado da @Paola_Ferro repassando o link de uma matéria da Folha de São Paulo sobre um revestimento que o asfalto do trecho oeste do Rodoanel vai receber para diminuir o barulho causado pelo atrito dos pneus! Diz o texto (que pode ser lido na íntegra aqui) que a redução chega a ser da ordem de 5 decibéis! Achei civilizadíssimo também!
Mas nem tudo são flores: segundo me informa a Paola, isso só está acontecendo no trecho oeste do Rodoanel porque os moradores de Alphaville e adjacências entraram com algum tipo de demanda junto ao Ministério Público!
Pelo visto, para o resto dos vizinhos do Rodoanel, não haverá nem placas de isolamento acústico nem revestimento especial do asfalto... Ouvidos de moradores de bairros classe A valem muito mais, né?

domingo, 28 de março de 2010

Psiu renascendo!

A morte do Psiu repercutiu bastante por aí. Entre várias manifestações, houve até um editorial da Folha de São Paulo no dia 19 de março criticando muito as alterações na lei. Vejam só o primeiro parágrafo, que primor:

São Paulo caminha para tornar-se inabitável, como tantas metrópoles de países sem tradição de planejamento urbano. Não precisa de vereadores para agravar o desconforto dos moradores, como se esmeram em fazer seus representantes eleitos. O último acinte da Câmara Municipal foi o retrocesso na chamada Lei do Psiu, que tornará mais difícil a fiscalização do barulho na capital.

Eu gostei da classificação da aprovação da lei como "acinte". Eu também considerei assim.
E no final, o texto explicita um ponto da nova lei que eu não tinha entendido: na verdade, é preciso levar o dono do estabelecimento infrator até o local de onde partiu a denúncia, para testemunhar a checagem do nível de ruído. Ou seja, se eu denunciar, terei de receber, em minha casa, junto com os fiscais do Psiu, o cara que eu estou denunciando por perturbar o meu sossego! Será que serei obrigada a servir um cafezinho pra ele também? Ora faça-me um favor, senhor Carlos Apolinário! Isso é intimidação descarada e legalizada!!!
Felizmente, o Tribunal de Justiça de São Paulo deu uma decisão favorável à prefeitura, que entrou com uma ação de inconstitucionalidade contra a nova lei no dia 23 de março, então tudo volta a ser como antes no âmbito do Psiu: uma fiscalização morosa mas que pelo menos nos dá uma perspectiva de algum dia poder estar em sossego dentro de nossas próprias casas!
Entretanto, como tenho a impressão de que o sr. Carlos Apolinário e seus asseclas não vão se conformar, é melhor a gente continuar de olho neles e lembrar desses nomes de vereadores no dia da eleição, em 2012! Aliás, se alguém souber os nomes dos vereadores que votaram a favor da alteração da lei, pode me passar que eu divulgo aqui!


sábado, 20 de março de 2010

Nota de falecimento

Faleceu neste dia 17 do mês de março o Programa de Silêncio Urbano (Psiu), da Prefeitura de São Paulo. A morte ocorreu no momento em que foi publicada no Diário Oficial o texto da lei 15.133, que reduz as multas aos estabelecimentos barulhentos e ainda condiciona a fiscalização à presença do denunciante, do denunciado e de testemunhas.
Agora me digam: quantos se dispõem a estar presentes, mostrando a cara, no momento da fiscalização, sabendo que, depois da partida dos fiscais do Psiu, podem ficar à disposição do denunciado, para sofrer retaliações? Essa vulnerabilidade fica ainda agravada pelo fato de que geralmente quem denuncia é quem sofre com a barulheira, ou seja, os vizinhos... Quem gostaria de se colocar nessa posição desconfortável de saber que o dono do estabelecimento vizinho pode estar preparando uma vingança contra você? Quem vai garantir a segurança do denunciante e das testemunhas? Vai haver um serviço municipal de proteção aos denunciantes e às testemunhas?
Claro que não. O que vai acontecer é que muito poucos encararão a possibilidade de fazer uma denúncia nesses moldes não anônimos. E então o barulho vai poder ficar à vontade em qualquer ponto da cidade. Legal, né?
Mais facilidades para os barulhentos: além da diminuição do valor das multas (era de 4 a 28 mil e agora passarão a ser de 500 a 8 mil reais), o infrator pode ter até 90 dias para adequar seu estabelecimento às normas, mas se ele precisar de mais tempo, a prefeitura pode ampliar o prazo. Enquanto isso, quem dorme?
No site do Psiu, ainda está online o seguinte texto:

Como denunciar
As denúncias podem ser feitas pelo telefone 156, pelo SAC ou nas subprefeituras. Para que a ação tenha mais eficiência, é importante que a pessoa informe o endereço completo do estabelecimento que está provocando incômodo, o horário de maior incidência de barulho e o tipo de atividade que ele exerce. O denunciante também deve identificar-se com nome completo, endereço e telefone. Os dados pessoais são guardados sob sigilo e não são divulgados.

Mas o sigilo anunciado aí já vai sair de cena, é só o tempo de adequarem o site à nova legislação, infelizmente!
Anotem aí: o assassino do Psiu é o vereador Carlos Apolinário, do DEM (aliás, o mesmo partido do Prefeito Kassab), que conseguiu fazer passar a aprovação do projeto na Câmara Municipal de São Paulo, mesmo depois do veto do Prefeito às alterações. Logo, todos os vereadores que votaram a favor das alterações podem ser considerados cúmplices nessa morte do Psiu, pois com seus votos alinhados com a proposta do Carlos Apolinário, foram co-autores de um crime à paz urbana.
Felizmente, ainda há uma esperança, embora ainda longínqua. Segundo o texto de uma notícia que encontrei na internet (jornal Destak), o Prefeito está pensando em entrar na justiça contra a nova lei, porque ela inviabilizaria a fiscalização. Segundo ele, a prefeitura deverá preparar uma legislação alternativa, mas somente depois que a justiça der seu parecer sobre a lei recém aprovada. Alguém quer apostar quantos anos se passarão enquanto isso?
Mas além dele, o deputado estadual Carlos Giannazi, do PSOL, prepara uma ação popular e uma representação ao Ministério Público, contra a nova lei, argumentando que essas alterações que abrandam as normas do Psiu ferem a Lei do Meio Ambiente (9.605) e uma resolução do Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente), que recomendam rigor na fiscalização de problemas como a poluição sonora.
Enfim, a nós, só nos resta ficar na torcida e fazer nossas orações à deusa romana do silêncio Tácita, para que quem sabe ela tenha piedade de nós, insones atormentados pelo barulho alheio!
Enquanto isso, Psiulândia está de luto, triste pela morte do Psiu!

domingo, 7 de março de 2010

Uma nativa da Psiulândia na terra do axé...

Então, eu adoro a Bahia! Gosto daquela orla comprida de Salvador, com aquele mar lindo e morno ali prontinho para o nosso mergulho! Sou louca por acarajé, moqueca, vatapá, caruru e ando com a minha fitinha da festa de Iemanjá no pulso.
Gosto tanto que fui passar as minhas férias de fevereiro por lá e não me arrependo nem um pouquinho. Isso entretanto, não me impede de exercer minha rabugice no território que é minha especialidade: o barulho.
Tá difícil andar pela Bahia e não ter de aguentar um carro com o som altíssimo tocando muito alto um tipo de música que jamais na minha vida eu escolheria ouvir. E isso em todos os lugares...
Felizmente, cada vez mais é possível encontrar avisos em bares de que é proibido ligar o som dos carros, mas ainda é muito maior o número de lugares em que esse tipo de falta de educação é aceito sem nenhuma restrição.
Tive experiências muito interessantes nessas andanças mais atuais pela Bahia, conhecendo algumas praias novas. Uma delas foi a Pedra do Sal, já bem no finzinho da orla de Salvador, onde tem uma barraca de praia (Barraca da Goa, indicação da @ladyrasta) em que é possível a gente ficar descansando com uma musiquinha bem baixinha e de excelente gosto, enquanto toma uma caipirinha, como um queijo coalho e dá um mergulho. Uma delícia!
Em compensação, fui a Imbassaí, uma praia maravilhosa, com rio e mar se encontrando em meio a fotogênicos coqueiros e bancos de areia. Olha a foto aí:


Não parece mesmo um paraíso? Mas isso é só porque foto não tem som, senão vocês ouviriam uma música detestável, saindo em volume muito alto de uma das barracas de praia que há ali, inviabilizando qualquer possibilidade de curtir o sossego local! Assim não dá, né?
Também fiquei injuriada com o Hotel Pestana, aquele lindão do Rio Vemelho: café da manhã com música ao vivo! Onde já se viu? O pobre do violonista se esforçando para ser simpático e todo mundo comendo suas tapiocas sem nem ligar para o coitado. E eu querendo silêncio pra curtir os quitutes e a linda vista mas sendo impossibilitada pelo Djavan cover! (Aliás, por que será que todo mundo que toca violão em barzinhos e adjacências adora tocar Djavan, hem?) Aliás, o mesmo violonista estava no bar do Hotel, na happy hour, com o mesmo repertório, com o agravante de que, nos intervalos, ia de mesa em mesa vendendo os seus cds. Deplorável!
Pra compensar, na semana que antecedeu o Carnaval, fiquei em Boipeba, outro lugar em que o sossego das praias não é perturbado por música compulsória, e adorei. Super recomendável para os rabugentos de plantão como eu! Na Pousada Santa Clara, jantar com trilha sonora diretamente do Ipod do Charles, super de bom gosto e com um volume na medida certa pra não atrapalhar o clima delicioso do lugar e nem incomodar a gente na degustação das maravilhas feitas pelo Mark na cozinha. Por mim, tirava todas as estrelas do Pestana e passava para a Pousada Santa Clara!
Enfim, foi uma viagem maravilhosa, mesmo com alguns dissabores musicais! Pra resumir, acho que dá pra uma nativa da Psiulândia, rabugenta como eu, passear pela Bahia com um mínimo de sossego: basta escolher bem os lugares a serem visitados!

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Barulho até debaixo d'água!

Meu amigo Sandro Fortunato, que tem dois sítios ótimos na internet (o blog Sempre algo a dizer e o site Memória viva), sempre acompanha o Psiulândia e, um pouco antes do Carnaval, me mandou um e-mail com dados sobre um evento que aconteceria em Pirangi, no Rio Grande do Norte.
Pirangi do Norte é uma praia potiguar, famosa pelo maior cajueiro do mundo. Faz parte do município de Parnamirim, a uns 30 quilômetros de Natal.
Segundo meu amigo Sandro, trata-se um dos lugares mais barulhentos do Rio Grande do Norte, com carros, trios elétricos e casas despejando barulho na rua principal da cidade
A praia também e famosa pelos parrachos, barreiras de coral muito visitadas por turistas, ainda sem muito controle ambiental, como o próprio IBAMA reconhece em algumas matérias que andaram saindo nos jornais da região e que podem ser encontradas na internet através do Google, digitando a expressão "carnaparracho".
Esses parrachos ficam a dois quilômetros da beira-mar e foram escolhidos por um DJ chamado Bruno Giovani, para serem o local de um evento chamado "Carnaparracho", em que um "barco elétrico" comandado pelo DJ levaria o tum-tum-tum no volume característico dos trios elétricos para o deleite das criaturas aquáticas, seguido por uma "mareata" de lanchas e barcos com seus próprios alto-falantes pra ajudar na composição do inferno aquático. Depois disso, todos se reuniriam num espaço à beira-mar para dar continuidade à festança em terra.
Para alívio dos peixes, corais e outros seres marinhos, o IBAMA não autorizou a realização do Carnaparracho, mas já pensaram se a moda pega?

domingo, 21 de fevereiro de 2010

Então era só mais um rodízio?

Há alguns meses eu publiquei um texto no blog da Carmem, o De uns tempos pra cá, falando sobre um fato ocorrido em São Paulo, em que a prefeitura demoliu uma vilazinha clandestina que tinha se estabelecido numa das encostas da Avenida 23 de maio, com entrada pelo Viaduto Paraíso. Pra quem quiser chegar direto ao texto, é só clicar aqui.
Pouco depois, publiquei uma continuação do caso, agora neste meu blog, contando como alguns grafiteiros ocuparam o espaço. Quem quiser reler, é só clicar aqui.
Reclamei muito, porque achei um absurdo a prefeitura destruir uma vilazinha só para transformar o espaço numa montanha de entulho, que rapidamente virou depósito de lixo, criando mais um espaço feio e perigoso na cidade, más qualidades que nem o grafite do pessoal da arte urbana conseguiu reverter.
O post inicial, no blog da Carmem, era de novembro do ano passado. O lugar ficou do mesmo jeito durante 3 meses. Agora começou a mudar: outras pessoas mudaram pra lá e começaram a reconstruir as casas. Ah, agora entendi: o prefeito queria apenas dar oportunidade para mais um rodízio paulistano: o de moradias clandestinas!
Seguem abaixo duas fotos ilustrativas, tiradas ontem.





Notem a corrente fechando o portão: será que vai ser suficiente pra segurar o prefeito quando ele tiver vontade de fazer mais um rodízio de gente?

sábado, 23 de janeiro de 2010

Escuitando!

Conheci uma senhora já falecida, camponesa, que muitas vezes ficava parada num canto, quietinha. Quando a gente perguntava: "O que a senhora tá fazendo aí tão quietinha, dona Iolanda?" ela respondia: "Tô escuitando!" E às vezes não tinha nada pra ela "escuitar" a não ser o silêncio. "Escuitar", pra ela, era ficar ali, quietinha, pensando na vida. Escutando a si mesma, quando tudo em volta dela estava quieto.
Lembrei disso outro dia, ainda no ano passado, quando li uma interessante matéria da Eliane Brum na revista Época, intitulada "Por que as pessoas falam tanto?", cujo link está aqui.
Já tinha lido outra matéria dela, de 2008 (o link está na própria reportagem que cito aqui), sobre a experiência de passar dez dias em silêncio, numa espécie de retiro. Acho que essa experiência marcou tanto a Eliane que ela passou a ver o mundo barulhento em que vivemos de outra forma.
Só pra ter uma idéia, cito um trechinho da matéria mais atual:

É um mundo de faladores compulsivos o nosso. Compulsivos e auto-referentes. Não conheço estatísticas sobre isso, mas eu chutaria, por baixo, que mais da metade das pessoas só falam sobre si mesmas. Seu mundo torna-se, portanto, muito restrito. E muito chato. Por mais fascinantes que possamos ser, não é o suficiente para preencher o assunto de uma vida inteira.

Não é muito interessante? Vale a pena dar uma passada lá pela página da revista e ler o texto completo. Essa leitura talvez interfira um pouco na maneira como usamos a fala e nos leve a praticar um pouco mais o que a dona Iolanda chamava de "escuitar".

domingo, 17 de janeiro de 2010

Bardot na Psiulândia!

Li esses dias uma matéria na internet sobre Brigitte Bardot. O artigo comentava uma entrevista dada por ela ao jornal italiano "La Repubblica" e publicada em 26/09/2009. Entre outras coisas interessantes, ela disse que preferia estar com os bichos, porque estava cansada da "humanidade ruidosa e intrometida".
Pois é, parece que temos mais uma moradora para a Psiulândia! Bem-vinda, Brigitte!
Mas só pra ser um pouco mais ranheta, aproveito para mais uma observação: acho curioso como uma atriz que foi tão importante e cobiçada quando era jovem seja agora vista como como uma velha rabugenta. Os jornais e revistas parece que têm um prazer secreto em publicar fotos em que as evidências da passagem do tempo estejam bem destacadas no rosto e no corpo de Brigitte. Além disso, toda a imprensa adora destacar as esquisitices dela, deixando de lado o que pode haver de louvável no que ela faz.
Cá pra nós, acho que esse pessoal só vem mesmo confirmar o que ela disse: a humanidade anda ruidosa e intrometida!